Há poucos dias, o frio e a chuva do inverno gaúcho me fizeram recalcular a rota do dia. Decidi não sair para caminhar, recolhi-me um pouco mais cedo, não abri as redes sociais e não forcei a escrita de nenhuma linha. Pela primeira vez na vida, deitei a cabeça no travesseiro e não senti culpa. Para quem olha de fora, pode parecer uma escolha simples, quase corriqueira. Mas para quem atravessou décadas sob a lógica implacável e o chicote invisível do mundo corporativo, silenciar a cobrança interna por produtividade é um dos aprendizados mais difíceis — e revolucionários — da maturidade.
Ao me ver ali, protegida e respeitando o ritmo do meu corpo, uma lembrança antiga me veio à mente. Anos atrás, em um dia terrivelmente frio e chuvoso, acordei com uma severa infecção na garganta. O corpo doía, a febre subia e a garganta estava quase fechada. No entanto, havia prazos inegociáveis na empresa e nenhuma outra pessoa que pudesse assumir as minhas tarefas. Trabalhei a manhã inteira anestesiada pela obrigação. No intervalo do almoço, corri até a farmácia para tomar uma injeção que era a única solução para esse caso. Quem já passou por isso sabe o desconforto que se segue: quando o medicamento começa a agir, o corpo reage com um suor intenso e exaustivo. Voltei para o escritório naquele estado — com dor, febre, as roupas colando ao corpo pelo suor — e sentei-me em uma mesa de reunião. Lembro-me de olhar para as pessoas e perceber que eu sequer conseguia me concentrar no que estava sendo dito.
O orgulho disfarçado de sacrifício
Durante muito tempo, fiz parte daquela geração que se desafiava diariamente. Eu alimentava o mantra interno de que jamais seria demitida de um emprego por “não dar conta”. Essa postura era uma questão de honra, um pilar que sustentava a minha identidade profissional. De fato, cumpri essa promessa ao longo de toda a minha carreira. Mas hoje, olhando para trás com distanciamento, consigo enxergar o perigo dessa engrenagem. O sistema nos ensina a camuflar a negligência com o próprio corpo e mente sob o rótulo de “comprometimento” e “resiliência”. Fomos educados para acreditar que o nosso valor humano é diretamente proporcional à nossa capacidade de aguentar o sofrimento sem reclamar.
É um hábito comum entre os profissionais da minha geração criticar os mais jovens. Ouvimos frequentemente que falta casca às novas gerações, que eles desistem fácil ou que não têm o mesmo compromisso. No entanto, hoje vejo com clareza que, nesse aspecto, são eles que estão corretos. Os mais novos compreenderam uma verdade essencial que nós demoramos décadas para aceitar: o trabalho é parte da vida, mas não pode ser o preço da nossa saúde. Eles aprenderam a estabelecer limites antes que o corpo precise gritar através de uma doença para fazê-los parar.
Operando pela metade
A verdade que o mundo da alta performance tenta omitir é de uma lógica matemática simples: como você vai realizar as suas tarefas, criar os seus projetos ou cuidar daqueles que ama se você está operando pela metade? Oferecer ao mundo os nossos retalhos, o nosso cansaço e a nossa mente enevoada pela exaustão não é um ato de generosidade; é um caminho direto para o adoecimento.
O bem-estar possível não nasce da nossa capacidade de sermos invencíveis, mas sim da nossa coragem de sermos humanos. Exige que a gente aprenda a fechar a porta para o barulho das cobranças e se dê o direito legítimo a uma pausa. Recolher-se, dormir mais cedo e simplesmente não fazer nada quando o corpo pede trégua é o verdadeiro autocuidado. Cumpri a minha cota de reuniões com febre e suor frio; hoje, celebro a vitória madura e silenciosa de saber que a minha integridade vale muito mais do que qualquer prazo. Afinal, para estarmos inteiras para a vida, precisamos, antes de tudo, ter a honestidade de parar quando o coração e o corpo pedem abrigo.



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