Bem Estar Possível

Pausa, respiro e o pé no chão

  • Escolha consciente: o direito de pausar

    Escolha consciente: o direito de pausar

    Quem olha as janelas de uma casa de fora nem sempre imagina as histórias que se passam do lado de dentro do vidro. Há poucos dias, olhei para as janelas do meu lar e percebi que elas precisavam de uma boa limpeza. No entanto, o meu momento atual me pedia outra prioridade. Uma das minhas cachorrinhas está enfrentando uma fase difícil, com muita dificuldade para levantar e sem o controle das suas necessidades fisiológicas. Minha rotina hoje inclui trocar as fraldas dela cerca de seis vezes ao dia, um ato de cuidado constante que me exige, logo em seguida, lavar muito bem as mãos com água e sabão. Em pleno inverno, esse ciclo repetitivo cobrou o seu preço: minhas mãos desenvolveram um problema de pele incômodo e doloroso.

    Diante do balde, do rodo e do pano de limpeza, precisei fazer uma escolha. Decidi cruzar os braços e esperar. Vou aguardar por um dia com o clima mais ameno e, principalmente, esperar que a minha pele esteja totalmente recuperada para finalmente limpar os vidros. Se essa situação acontecesse há alguns anos, eu não importaria o quão mal estivesse física ou emocionalmente; eu daria um jeito, ignoraria a dor nas mãos e lavaria as janelas de qualquer forma, movida por uma cobrança invisível de perfeição.

    O direito de escolher as nossas batalhas

    A maturidade, felizmente, nos traz um discernimento libertador. Hoje, compreender que as minhas janelas ficarão sujas por mais algum tempo não me define como uma péssima dona de casa, e muito menos como uma pessoa desleixada. É, acima de tudo, uma escolha consciente a que tenho pleno direito, e vou me permitir fazê-la sem carregar um grama de culpa. A vida não é sobre manter vidros imaculados para quem passa na rua olhar; é sobre como gerenciamos a nossa energia para dar conta do que realmente importa.

    A verdade nua e crua é que a vida acontece, quer estejamos prontos ou não, quer nos sintamos bem ou não. O imprevisto bate à porta, o corpo adoece, quem amamos precisa de nós e o tempo urge. Diante desse turbilhão, são as nossas pequenas decisões diárias que vão determinar se a jornada será um pouco mais leve ou desnecessariamente massacrante. Escolher não limpar a janela para proteger as próprias mãos e guardar forças para cuidar de um animal vulnerável é uma declaração de paz interna.

    O bem-estar que é possível hoje

    Viver sob a ditadura do “tenho que fazer” adoece a mente e o corpo. Quando insistimos em manter as aparências de uma rotina perfeita às custas da nossa própria integridade, nós nos transformamos em carrascos de nós mesmos. O bem-estar possível nasce justamente desse limite saudável, dessa capacidade de olhar para a lista de tarefas e dizer: “Isso pode esperar”.

    Minhas janelas continuarão com marcas de chuva por mais alguns dias, e está tudo bem. Do lado de dentro, a casa continua cheia de afeto, o cuidado com a minha cachorrinha segue impecável e as minhas mãos estão ganhando tempo para cicatrizar. No grande livro das nossas vidas, ninguém vai se lembrar se os vidros estavam brilhando na segunda semana de julho, mas nós certamente nos lembraremos do carinho com que acolhemos as nossas próprias fraquezas e as daqueles que dependem do nosso amor.

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  • O direito de estar inteira: o verdadeiro autocuidado, sem culpa

    O direito de estar inteira: o verdadeiro autocuidado, sem culpa

    Há poucos dias, o frio e a chuva do inverno gaúcho me fizeram recalcular a rota do dia. Decidi não sair para caminhar, recolhi-me um pouco mais cedo, não abri as redes sociais e não forcei a escrita de nenhuma linha. Pela primeira vez na vida, deitei a cabeça no travesseiro e não senti culpa. Para quem olha de fora, pode parecer uma escolha simples, quase corriqueira. Mas para quem atravessou décadas sob a lógica implacável e o chicote invisível do mundo corporativo, silenciar a cobrança interna por produtividade é um dos aprendizados mais difíceis — e revolucionários — da maturidade.

    Ao me ver ali, protegida e respeitando o ritmo do meu corpo, uma lembrança antiga me veio à mente. Anos atrás, em um dia terrivelmente frio e chuvoso, acordei com uma severa infecção na garganta. O corpo doía, a febre subia e a garganta estava quase fechada. No entanto, havia prazos inegociáveis na empresa e nenhuma outra pessoa que pudesse assumir as minhas tarefas. Trabalhei a manhã inteira anestesiada pela obrigação. No intervalo do almoço, corri até a farmácia para tomar uma injeção que era a única solução para esse caso. Quem já passou por isso sabe o desconforto que se segue: quando o medicamento começa a agir, o corpo reage com um suor intenso e exaustivo. Voltei para o escritório naquele estado — com dor, febre, as roupas colando ao corpo pelo suor — e sentei-me em uma mesa de reunião. Lembro-me de olhar para as pessoas e perceber que eu sequer conseguia me concentrar no que estava sendo dito.

    O orgulho disfarçado de sacrifício

    Durante muito tempo, fiz parte daquela geração que se desafiava diariamente. Eu alimentava o mantra interno de que jamais seria demitida de um emprego por “não dar conta”. Essa postura era uma questão de honra, um pilar que sustentava a minha identidade profissional. De fato, cumpri essa promessa ao longo de toda a minha carreira. Mas hoje, olhando para trás com distanciamento, consigo enxergar o perigo dessa engrenagem. O sistema nos ensina a camuflar a negligência com o próprio corpo e mente sob o rótulo de “comprometimento” e “resiliência”. Fomos educados para acreditar que o nosso valor humano é diretamente proporcional à nossa capacidade de aguentar o sofrimento sem reclamar.

    É um hábito comum entre os profissionais da minha geração criticar os mais jovens. Ouvimos frequentemente que falta casca às novas gerações, que eles desistem fácil ou que não têm o mesmo compromisso. No entanto, hoje vejo com clareza que, nesse aspecto, são eles que estão corretos. Os mais novos compreenderam uma verdade essencial que nós demoramos décadas para aceitar: o trabalho é parte da vida, mas não pode ser o preço da nossa saúde. Eles aprenderam a estabelecer limites antes que o corpo precise gritar através de uma doença para fazê-los parar.

    Operando pela metade

    A verdade que o mundo da alta performance tenta omitir é de uma lógica matemática simples: como você vai realizar as suas tarefas, criar os seus projetos ou cuidar daqueles que ama se você está operando pela metade? Oferecer ao mundo os nossos retalhos, o nosso cansaço e a nossa mente enevoada pela exaustão não é um ato de generosidade; é um caminho direto para o adoecimento.

    O bem-estar possível não nasce da nossa capacidade de sermos invencíveis, mas sim da nossa coragem de sermos humanos. Exige que a gente aprenda a fechar a porta para o barulho das cobranças e se dê o direito legítimo a uma pausa. Recolher-se, dormir mais cedo e simplesmente não fazer nada quando o corpo pede trégua é o verdadeiro autocuidado. Cumpri a minha cota de reuniões com febre e suor frio; hoje, celebro a vitória madura e silenciosa de saber que a minha integridade vale muito mais do que qualquer prazo. Afinal, para estarmos inteiras para a vida, precisamos, antes de tudo, ter a honestidade de parar quando o coração e o corpo pedem abrigo.

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Pausa, respiro e o pé no chão

Tag: Pausa sem culpa

  • Escolha consciente: o direito de pausar

    Escolha consciente: o direito de pausar

    Quem olha as janelas de uma casa de fora nem sempre imagina as histórias que se passam do lado de dentro do vidro. Há poucos dias, olhei para as janelas do meu lar e percebi que elas precisavam de uma boa limpeza. No entanto, o meu momento atual me pedia outra prioridade. Uma das minhas cachorrinhas está enfrentando uma fase difícil, com muita dificuldade para levantar e sem o controle das suas necessidades fisiológicas. Minha rotina hoje inclui trocar as fraldas dela cerca de seis vezes ao dia, um ato de cuidado constante que me exige, logo em seguida, lavar muito bem as mãos com água e sabão. Em pleno inverno, esse ciclo repetitivo cobrou o seu preço: minhas mãos desenvolveram um problema de pele incômodo e doloroso.

    Diante do balde, do rodo e do pano de limpeza, precisei fazer uma escolha. Decidi cruzar os braços e esperar. Vou aguardar por um dia com o clima mais ameno e, principalmente, esperar que a minha pele esteja totalmente recuperada para finalmente limpar os vidros. Se essa situação acontecesse há alguns anos, eu não importaria o quão mal estivesse física ou emocionalmente; eu daria um jeito, ignoraria a dor nas mãos e lavaria as janelas de qualquer forma, movida por uma cobrança invisível de perfeição.

    O direito de escolher as nossas batalhas

    A maturidade, felizmente, nos traz um discernimento libertador. Hoje, compreender que as minhas janelas ficarão sujas por mais algum tempo não me define como uma péssima dona de casa, e muito menos como uma pessoa desleixada. É, acima de tudo, uma escolha consciente a que tenho pleno direito, e vou me permitir fazê-la sem carregar um grama de culpa. A vida não é sobre manter vidros imaculados para quem passa na rua olhar; é sobre como gerenciamos a nossa energia para dar conta do que realmente importa.

    A verdade nua e crua é que a vida acontece, quer estejamos prontos ou não, quer nos sintamos bem ou não. O imprevisto bate à porta, o corpo adoece, quem amamos precisa de nós e o tempo urge. Diante desse turbilhão, são as nossas pequenas decisões diárias que vão determinar se a jornada será um pouco mais leve ou desnecessariamente massacrante. Escolher não limpar a janela para proteger as próprias mãos e guardar forças para cuidar de um animal vulnerável é uma declaração de paz interna.

    O bem-estar que é possível hoje

    Viver sob a ditadura do “tenho que fazer” adoece a mente e o corpo. Quando insistimos em manter as aparências de uma rotina perfeita às custas da nossa própria integridade, nós nos transformamos em carrascos de nós mesmos. O bem-estar possível nasce justamente desse limite saudável, dessa capacidade de olhar para a lista de tarefas e dizer: “Isso pode esperar”.

    Minhas janelas continuarão com marcas de chuva por mais alguns dias, e está tudo bem. Do lado de dentro, a casa continua cheia de afeto, o cuidado com a minha cachorrinha segue impecável e as minhas mãos estão ganhando tempo para cicatrizar. No grande livro das nossas vidas, ninguém vai se lembrar se os vidros estavam brilhando na segunda semana de julho, mas nós certamente nos lembraremos do carinho com que acolhemos as nossas próprias fraquezas e as daqueles que dependem do nosso amor.

  • O direito de estar inteira: o verdadeiro autocuidado, sem culpa

    O direito de estar inteira: o verdadeiro autocuidado, sem culpa

    Há poucos dias, o frio e a chuva do inverno gaúcho me fizeram recalcular a rota do dia. Decidi não sair para caminhar, recolhi-me um pouco mais cedo, não abri as redes sociais e não forcei a escrita de nenhuma linha. Pela primeira vez na vida, deitei a cabeça no travesseiro e não senti culpa. Para quem olha de fora, pode parecer uma escolha simples, quase corriqueira. Mas para quem atravessou décadas sob a lógica implacável e o chicote invisível do mundo corporativo, silenciar a cobrança interna por produtividade é um dos aprendizados mais difíceis — e revolucionários — da maturidade.

    Ao me ver ali, protegida e respeitando o ritmo do meu corpo, uma lembrança antiga me veio à mente. Anos atrás, em um dia terrivelmente frio e chuvoso, acordei com uma severa infecção na garganta. O corpo doía, a febre subia e a garganta estava quase fechada. No entanto, havia prazos inegociáveis na empresa e nenhuma outra pessoa que pudesse assumir as minhas tarefas. Trabalhei a manhã inteira anestesiada pela obrigação. No intervalo do almoço, corri até a farmácia para tomar uma injeção que era a única solução para esse caso. Quem já passou por isso sabe o desconforto que se segue: quando o medicamento começa a agir, o corpo reage com um suor intenso e exaustivo. Voltei para o escritório naquele estado — com dor, febre, as roupas colando ao corpo pelo suor — e sentei-me em uma mesa de reunião. Lembro-me de olhar para as pessoas e perceber que eu sequer conseguia me concentrar no que estava sendo dito.

    O orgulho disfarçado de sacrifício

    Durante muito tempo, fiz parte daquela geração que se desafiava diariamente. Eu alimentava o mantra interno de que jamais seria demitida de um emprego por “não dar conta”. Essa postura era uma questão de honra, um pilar que sustentava a minha identidade profissional. De fato, cumpri essa promessa ao longo de toda a minha carreira. Mas hoje, olhando para trás com distanciamento, consigo enxergar o perigo dessa engrenagem. O sistema nos ensina a camuflar a negligência com o próprio corpo e mente sob o rótulo de “comprometimento” e “resiliência”. Fomos educados para acreditar que o nosso valor humano é diretamente proporcional à nossa capacidade de aguentar o sofrimento sem reclamar.

    É um hábito comum entre os profissionais da minha geração criticar os mais jovens. Ouvimos frequentemente que falta casca às novas gerações, que eles desistem fácil ou que não têm o mesmo compromisso. No entanto, hoje vejo com clareza que, nesse aspecto, são eles que estão corretos. Os mais novos compreenderam uma verdade essencial que nós demoramos décadas para aceitar: o trabalho é parte da vida, mas não pode ser o preço da nossa saúde. Eles aprenderam a estabelecer limites antes que o corpo precise gritar através de uma doença para fazê-los parar.

    Operando pela metade

    A verdade que o mundo da alta performance tenta omitir é de uma lógica matemática simples: como você vai realizar as suas tarefas, criar os seus projetos ou cuidar daqueles que ama se você está operando pela metade? Oferecer ao mundo os nossos retalhos, o nosso cansaço e a nossa mente enevoada pela exaustão não é um ato de generosidade; é um caminho direto para o adoecimento.

    O bem-estar possível não nasce da nossa capacidade de sermos invencíveis, mas sim da nossa coragem de sermos humanos. Exige que a gente aprenda a fechar a porta para o barulho das cobranças e se dê o direito legítimo a uma pausa. Recolher-se, dormir mais cedo e simplesmente não fazer nada quando o corpo pede trégua é o verdadeiro autocuidado. Cumpri a minha cota de reuniões com febre e suor frio; hoje, celebro a vitória madura e silenciosa de saber que a minha integridade vale muito mais do que qualquer prazo. Afinal, para estarmos inteiras para a vida, precisamos, antes de tudo, ter a honestidade de parar quando o coração e o corpo pedem abrigo.