Bem Estar Possível

Pausa, respiro e o pé no chão

  • Sobre a pressa e o valor das palavras

    Sobre a pressa e o valor das palavras

    Na última quinta-feira, precisei ajustar a minha rotina. Como meus cachorros estavam em semana de recesso da creche e eu tinha a limpeza da casa para dar conta, levantei mais cedo para fazer a nossa caminhada e ganhar tempo. O plano era simples: um trajeto rápido, eficiente e direto de volta para o balde e o pano. No entanto, no meio do caminho, avistei de longe a casa de uma senhora de quase noventa anos, conhecida na vizinhança pelo gosto por uma boa prosa. Confesso que o primeiro pensamento que me veio à mente foi um sopro de contrariedade — achar que era um “azar” cruzar por ali justo no dia em que a minha agenda estava mais apertada.

    À medida que fui me aproximando, porém, percebi que ela abriu um sorriso tão genuíno, daqueles em que o rosto inteiro sorri e os olhos se iluminam, que qualquer apressamento meu desmoronou. Não tive coragem de seguir reto. Parei, respirei e dei a ela o que ela mais precisava naquele instante: alguns minutos de escuta atenta.

    A dor do “se eu soubesse”

    Aquele breve encontro na calçada me fez viajar no tempo, resgatando uma memória dolorosa da minha família. Anos atrás, uma tia que estava doente nos pediu um favor. Minha mãe e eu fomos até a casa dela entregá-lo, ficamos conversando por um tempo e, com a pressa habitual de todos os dias, nos despedimos. Lembro-me com clareza do abraço profundo e grato que ela nos deu na porta. Poucos dias depois, ela faleceu. Nos dias que se seguiram, ouvi minha mãe repetir com um suspiro pesado: “Se eu soubesse, teria ficado mais tempo”.

    É evidente que não podemos abandonar os nossos compromissos, ignorar as nossas obrigações ou viver à mercê da rotina alheia. No entanto, a vida se torna perigosamente fria quando nos tornamos tão inflexíveis a ponto de não conseguir ceder dez minutos do nosso dia para gestos simples que têm o poder de transformar o dia de alguém. A correria diária cria uma névoa sobre os nossos olhos; passamos pelas pessoas sem olhá-las de verdade no rosto, sem encarar as pupilas do outro para perceber a solidão silenciosa ou a necessidade urgente de uma simples conversa fiada.

    O peso da palavra dita com intenção

    Nunca fui uma pessoa expansiva. Minha natureza sempre foi a de observar — uma postura refinada ao longo de três décadas de atuação em Recursos Humanos e aprofundada pelo convívio diário com os meus animais, que nos ensinam que o afeto real dispensa o barulho. Talvez por isso, nutro um respeito quase sagrado pela linguagem. Cumprimento, mas pergunto “Tudo bem?” quando realmente disponho de tempo para ouvir a resposta, ou quando percebo que a pessoa do outro lado precisa desabafar.

    Em um mundo saturado de discursos vazios, frases prontas de polidez e promessas superficiais, acredito que as palavras são valiosas demais para serem gastas sem intenção. Preferir as ações não anula a importância do verbo; exige apenas que ele seja dito com verdade, saindo da boca somente para expressar o que o coração realmente sente.

    O bem-estar possível não habita em uma rotina milimetricamente controlada onde nada pode sair do lugar. Em trinta anos nas rotinas e prazos apertados do RH, aprendi que a gente consegue cumprir os compromissos, mesmo diante dos imprevistos. Por isso, o bem-estar possível mora na nossa capacidade de afrouxar os passos quando um sorriso sincero nos intercepta no caminho. Que a gente não precise da dor de uma perda para entender o valor da presença. Que tenhamos a coragem de desacelerar o relógio, erguer os olhos da calçada e nos doarmos por inteiro para quem só precisa, naquele momento, saber que não está invisível no mundo.

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