Quem busca o bem-estar e a lucidez nos dias de hoje precisa, inevitavelmente, fazer uma rota de fuga dos grandes centros urbanos da internet. Cada rede social desenvolveu sua própria neurose coletiva, e fingir que está tudo bem enquanto navegamos por elas é fechar os olhos para um diagnóstico óbvio: o mercado da ilusão nas redes está adoecendo a nossa sociedade em praça pública.
Se o Instagram virou a vitrine oficial da perfeição plástica, onde as vidas parecem editadas por um comercial de margarina, basta mudar de calçada para o cenário mudar de figura. O antigo Twitter, hoje X, transformou-se em um território sem lei, um ringue onde o ódio e a polarização ditam as regras. No Facebook, o que sobrou foi um mural de fofocas locais e notícias trágicas compartilhadas em looping.
No entanto, o fenômeno mais melancólico da nossa era talvez esteja acontecendo no TikTok. Ali, a promessa de “espontaneidade” deu lugar a uma engrenagem sutil e cruel de exploração humana.
A performance da naturalidade e o comércio de bugigangas
Andando pelo feed dos vídeos curtos, o que vemos não é a vida real, mas pessoas simples, muitas vezes humildes, forçando uma barra enorme para parecerem naturais e à vontade diante da câmera. Elas passam horas em transmissões ao vivo, repetindo gestos mecânicos, fazendo dancinhas ou tentando vender quinquilharias industriais na esperança de ganhar alguns trocados a mais no fim do mês.
O que há de mais triste nessa dinâmica não é o esforço do trabalhador para sobreviver, mas a ilusão que o move. Essas pessoas foram capturadas por discursos de espertos — “gurus” de marketing e enriquecimento rápido — que ostentam vidas milionárias fictícias na internet, prometendo que qualquer um pode alcançar o topo usando uma suposta estratégia infalível. É a monetização da esperança de quem tem pouco.
O tribunal do ressentimento e o pecado da felicidade
Mas o verdadeiro combustível que alimenta essa máquina é o ressentimento de quem assiste. Basta abrir qualquer seção de comentários para encontrar uma massa amarga, pronta para agredir gratuitamente quem não se encaixa nas regras invisíveis da tela. Os linchamentos virtuais acontecem porque alguém não tem a idade dita “adequada”, o corpo idealizado pelo filtro ou o comportamento dócil que a boiada espera.
Nesse tribunal digital, comete o maior dos pecados quem tem a coragem de dar a cara a tapa e ousar ser feliz de verdade. A internet não perdoa a liberdade. Esse ataque é ainda mais feroz quando o alvo são mulheres que passaram dos trinta anos, que estão acima do peso imposto pelas revistas, mas que escolheram ser livres e independentes. O algoritmo e os ressentidos entram em pânico diante de mulheres que, acima de tudo, leem, pensam e questionam. A autonomia mental é uma afronta para quem vive domesticado pelas curtidas.
Os deuses de barro e seus exércitos digitais
Enquanto a autenticidade real é apedrejada nos comentários, o topo da pirâmide é ocupado por influenciadores que mal conseguem desenvolver um pensamento linear ou uma reflexão profunda sobre o mundo. Ainda assim, amealham exércitos de seguidores fiéis.
Criou-se uma cultura de adoração a esses deuses de barro. Se alguém ousa questionar a superficialidade ou os valores dessas figuras, a horda sai em defesa com uma agressividade assustadora, como se estivessem protegendo uma divindade real. Perdeu-se o filtro da autocrítica. O público entrega seu tempo, sua atenção e sua mente para quem não tem nada a oferecer além de entretenimento vazio.
Resgatar o chão da realidade
O bem-estar possível não sobrevive dentro dessas lógicas. Não há saúde mental que resista a um ambiente que exige perfeição no Instagram, agressividade no X, humilhação coreografada no TikTok ou linchamento de mentes livres nos comentários.
O nosso maior ato de resistência hoje é fincar os pés na realidade. É valorizar o pensamento crítico, a conversa sem roteiro na cozinha de casa, o trabalho que tem substância e as relações que não precisam de telas para existir. Precisamos parar de jogar pérolas aos porcos nos comentários alheios, fechar os aplicativos e voltar a cuidar do nosso próprio chão, onde a nossa inteligência e a nossa liberdade não dependem da aprovação de nenhum zumbi digital.










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