Nos últimos dias, a chuva constante do inverno nos impediu de desfrutar do pátio e do jardim. Sem a possibilidade do ar livre, olhei para dentro de casa e decidi encarar uma tarefa há muito adiada: arrumar os armários da cozinha. É curioso como vivemos reclamando da falta de espaço. Deixamos de comprar itens funcionais de que realmente precisamos sob o pretexto de não ter onde guardá-los. No entanto, no momento em que nos dispomos a abrir as portas e encarar o que acumulamos, a realidade se revela. Percebemos que o espaço sempre esteve ali; ele apenas estava ocupado por excessos.
Ao longo do processo, fui me deparando com relíquias de um tempo que já passou: aquela louça antiga que já nem forma mais um jogo completo, as formas de bolo que há anos não vão ao forno e as panelas grandes, pensadas para um volume de comida que hoje já não faz o menor sentido para a nossa rotina. Guardamos coisas demais. Mas a descoberta mais incômoda dessa faxina não é o volume de utilitários sem uso, e sim a nossa estranha mania de guardar o que é bonito e usar apenas o que está gasto.
A ilusão da “ocasião especial”
Quantas vezes nos pegamos reservando a louça impecável, as taças reluzentes e o faqueiro bonito para um dia especial que raramente chega, enquanto no cotidiano nos servimos em pratos riscados e usamos facas que mal conseguem cortar um pedaço de pão? É claro que podemos — e devemos — ter itens guardados com carinho para celebrar momentos festivos. A armadilha está em tratar a vida diária como uma segunda categoria, como se a nossa própria rotina não fosse digna de aconchego e beleza.
Servir-se em uma mesa bem posta numa terça-feira qualquer, tomar um café em uma xícara bonita e usar talheres que cumprem o seu papel com excelência não é ostentação; é uma forma silenciosa de respeito por nós mesmos. Quando guardamos o melhor para os outros e nos contentamos com os restos no dia a dia, emitimos um sinal interno de que o nosso cotidiano não merece celebração.
Abrir espaço para o presente
Desapegar-se da panela que ficou grande demais para o momento atual é aceitar a transformação da nossa própria história. A casa muda, o número de pessoas na mesa se altera, os nossos hábitos evoluem. Reter o que não nos serve mais por mera nostalgia ou por medo da falta é fechar as portas para o novo. Quando doamos a louça velha e abrimos espaço nas prateleiras, não estamos apenas organizando a cozinha; estamos praticando um ato de desapego e presença.
O bem-estar possível habita na coragem de viver o presente com o melhor que temos hoje. Que a gente possa perder o medo de usar a louça boa na terça-feira de chuva, de acender a vela bonita sem motivo aparente e de vestir a mesa com o afeto que a nossa vida merece. Afinal, a ocasião mais especial, mais rara e mais urgente de todas é, simplesmente, o dia de hoje.




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