Bem Estar Possível

Pausa, respiro e o pé no chão

  • O lobo e a carícia: por que paramos de enxergar o meio-termo nas pessoas?

    O lobo e a carícia: por que paramos de enxergar o meio-termo nas pessoas?

    A cena que aconteceu hoje na rua foi um retrato divertidíssimo das dualidades que habitam o mundo. Saí mais tarde para caminhar com os cachorros por causa do frio e do tempo nublado, bem no dia em que rolava uma corrida rústica cheia de gente na rua (domingo). Entre os cães, uma das minhas fêmeas — aquela clássica “fiapo de manga”, de porte pequeno — tem uma personalidade curiosa. Ela é a simpatia em pessoa com quem cruza o caminho: se alguém sorri, ela dispara, se deita de barriga para cima e se derrete inteira pedindo carinho. Faz amizade com os frentistas do posto, com as fisioterapeutas da clínica aqui perto e com qualquer desconhecido. Hoje mesmo, quando duas mulheres e quatro crianças saíram de um carro estacionado e se encantaram com os cães, ela correu para o abraço coletivo e não queria arredar o pé de jeito nenhum.

    No entanto, essa mesma cachorra fofa e carente se transforma radicalmente dentro de casa. Com os outros cães e com os gatos, ela é de uma rabugice sem fim. Quando sobe na minha cama, assume o trono e não tolera concorrentes: se outro animal ousa se aproximar, ela rosna como se fosse um lobo feroz. E, quando percebe que não vai conseguir expulsar o intruso, ela mesma se retira com toda a soberba do mundo.

    Essa dualidade da minha pequena me fez refletir sobre como nós, seres humanos, temos a mania tacanha de classificar as pessoas em caixas fechadas: ou a criatura é boa, ou é má, sem direito a meio-termo. Amamos ou odiamos com base nessa etiqueta prévia. Acontece que a vida real zomba dessas categorias simplistas. Já vi pessoas de índole duvidosa realizando gestos de extrema generosidade, assim como já vi pessoas tidas como “boas” cometendo verdadeiras atrocidades quando pressionadas.

    Essa nossa mania de classificar previamente molda a forma como agimos: bajulamos quem julgamos bom, evitamos quem rotulamos como mau e devolvemos na mesma moeda o ataque de quem nos desagrada, sem sequer nos dar o trabalho de perguntar o que aquela pessoa está carregando por dentro. É claro que o sofrimento não dá a ninguém o direito de ser abusivo ou violento. Mas, se em vez de revidarmos o golpe no primeiro segundo, tivéssemos a coragem de acolher ou ao menos tentar entender o contexto, quem sabe não conseguiríamos desarmar o outro e mudar o rumo de um dia difícil? Afinal, ninguém é inteiramente luz ou sombra o tempo todo — nem mesmo a cachorrinha mais carinhosa da rua que se transforma em loba feroz na hora de defender a própria cama.

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