No último domingo, dia de eleições, a rotina aqui em casa ganhou um tempero de família. Minha irmã, que mora em outra cidade e ainda não transferiu o título de eleitor, veio passar o dia. Combinei de fazer um risoto caprichado para o almoço, aproveitando que ela faria o trajeto para exercer o seu direito cívico. Quando ela e meu cunhado chegaram, vieram com uma observação que me chamou a atenção: contaram que ficaram surpresos com a forma como as pessoas estavam vestidas na seção eleitoral. Parecia que não iam votar, mas desfilar em uma passarela ou comparecer a uma festa elegante.
A cena, à primeira vista, parece inofensiva — apenas o capricho com a própria imagem. Mas, depois que os resultados das urnas foram divulgados, aquela observação ecoou na minha cabeça de um jeito diferente, transformando-se em uma reflexão amarga sobre o nosso tempo. As pessoas se preparam com esmero por fora, escolhem a melhor roupa, cuidam da aparência, mas, na hora de decidir os rumos da comunidade, votam com o estômago, com o fígado e com o ressentimento.
A elegância do figurino e a feiúra das escolhas
O resultado dessa matemática social é estarrecedor. Com frequência, vemos eleitores impecavelmente arrumados elegendo justamente os candidatos envolvidos nos maiores escândalos de corrupção. Pessoas que votam de forma explícita contra os interesses do povo, que aparecem cercadas de investigados por crimes graves e cuja trajetória é marcada pela violência — sobretudo contra os mais vulneráveis, mulheres e crianças.
E o mais irônico — e trágico — é que são quase sempre essas mesmas pessoas que proclamam em alto e bom som: “Eu não gosto de política”, ou “Político é tudo igual, não presta”. É uma frase conveniente, usada como álibi moral para justificar a falta de envolvimento, o desinteresse cívico, a falta de humanidade, o egoísmo e, no fundo, para lavar as mãos diante dos próprios erros. Afinal, se “todo mundo é igual”, vale qualquer voto, mesmo o pior. Vota-se por birra, por ódio ao diferente, por alinhamento com discursos de tirania ou por puro reflexo de um ressentimento mal resolvido.
A fachada limpa e a casa por fazer
Nós gastamos uma energia monumental polindo a nossa imagem exterior, preocupados com o que os outros vão ver na rua, na seção de votação ou nas redes sociais. Vestimos a melhor roupa para ir às urnas, mas entregamos o futuro do país para quem destrói a dignidade humana.
O bem-estar possível não habita superfícies. Ele não está na roupa de marca usada no domingo de eleição e muito menos na falsa neutralidade de quem diz que “política não é da minha conta”. Cuidar da nossa casa comum exige decência, exige olhar para o histórico de quem colocamos no poder e assumir a responsabilidade pelas consequências dos nossos votos.
Enquanto continuarmos elegendo a destruição vestindo roupas de festa, continuaremos vivendo os reflexos dessa miopia moral. Que a gente comece a cobrar menos elegância nas urnas e mais coerência na vida real. Porque de nada adianta o tapete da sala estar limpo se a nossa escolha política continuar varrendo os direitos e a vida dos outros para debaixo do tapete.



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