Hoje cedo, enquanto levava minhas cachorras para caminhar, vivi uma dessas pequenas situações cotidianas, comuns em cidade pequena, mas que nos fazem parar para refletir. Eu estava em um determinado trecho do caminho quando uma pessoa, que já havia passado por mim há algum tempo, cruzou novamente meu caminho em seu trajeto de volta. Com um tom de quem cumpre uma meta, ela comentou que tinha ido até o centro da cidade — uma distância de cerca de quatro quilômetros — e já estava retornando, enquanto eu permanecia praticamente no mesmo lugar. Sorri e continuei meu caminho, mas aquela observação ficou ecoando em minha mente. Ela escancara uma tendência muito atual: a nossa mania de transformar qualquer atividade em uma competição de alta performance, onde o sucesso é medido apenas por números, velocidade e distância.
É claro que existem diferentes momentos e objetivos para uma atividade física. Lembro-me bem da época em que trabalhava no mundo corporativo; muitas vezes, assim que chegava em casa, saía para uma caminhada rápida e vigorosa. O objetivo ali era puramente físico e mental: eu precisava gastar a adrenalina acumulada e extravasar a tensão de um dia exaustivo de trabalho. Hoje, pratico pilates com um foco muito claro no ganho de equilíbrio, elasticidade e no fortalecimento da coluna, uma necessidade real diante de problemas congênitos sérios que acompanham minha família. Cada movimento tem um porquê. No entanto, a caminhada matinal com as minhas companheiras de quatro patas não pertence à minha agenda de exercícios. Aquela caminhada é delas.
O mundo através do faro
Uma das minhas cachorras é uma Malinois adotada. Não sei se é pura e pouco me importa, mas ela carrega todas as características marcantes da raça: uma energia vibrante e uma necessidade imensa de atividade. Para manter um animal desse porte saudável e equilibrado, o senso comum dita que é preciso correr quilômetros sem parar até exauri-lo. Mas a vida real nos mostra que o cansaço físico, por si só, não traz paz. É por isso que, durante os nossos passeios, eu as deixo caminhar no ritmo delas. Paramos a cada poucos metros para que elas possam cheirar a grama, observar o movimento da rua e socializar com os vizinhos que sempre aparecem para fazer um carinho. Um dia desses, paramos por vários minutos porque elas viram uma galinha em um quintal, animal que ainda não conheciam e analisavam curiosamente.
Para quem olha de fora com a régua da produtividade, pode parecer um passeio lento, quase um desperdício de tempo. Mas, na verdade, aquele tempo lento é um banho de saúde para a mente delas. O olfato é a maneira como o cachorro lê o mundo e processa informações; permitir que elas cheirem o ambiente e interajam com outras pessoas é oferecer estímulo mental e socialização. Um cão equilibrado nasce desse conjunto: gasto de energia física, sim, mas também respeito às suas necessidades psicológicas e emocionais.
A nossa própria necessidade de estímulo
O que me fascina nessa dinâmica é perceber como nós, seres humanos, não somos nem um pouco diferentes. No entanto, a grande maioria das pessoas continua focando apenas na casca, na engrenagem puramente física. Passam horas nas academias moldando o corpo, correm quilômetros controlados por relógios inteligentes e contam calorias obsessivamente, mas esquecem de alimentar a mente, de acalmar o espírito e de socializar de forma genuína. Vivem corpos cansados, mas mentes cronicamente entediadas, ansiosas e desequilibradas.
O bem-estar possível nos convida a resgatar essa visão integral que aplicamos aos nossos bichos de estimação. Precisamos de movimento, com certeza, mas também precisamos dar espaço para a nossa curiosidade, para o ócio, para o “cheirar o caminho” sem pressa de chegar a lugar nenhum. A maturidade nos dá esse discernimento valioso: o direito de não competir. Da próxima vez que alguém passar por você contando os quilômetros da vitória, lembre-se das lições discretas que o rabo abanando de um cachorro pode dar. O equilíbrio real não está na velocidade com que cruzamos a linha de chegada, mas na nossa capacidade de estarmos inteiros, conscientes e em paz exatamente no trecho do caminho onde escolhemos parar.
Muito importante: sempre que sair para caminhar com seu cão, leve-o preso na guia, para a segurança dele e dos outros. E não esqueça das sacolinhas para recolher suas necessidades.













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