Se você está acompanhando as transmissões da copa mundial de futebol, talvez tenha reparado em um detalhe curioso nos pés dos atletas. De forma quase simultânea, as maiores marcas de material esportivo do mundo decidiram lançar suas novas coleções de chuteiras exatamente na mesma cor: o magenta, aquele rosa intenso e carregado. Para quem olha de fora, pode parecer uma feliz coincidência criativa ou uma mera sintonia de época. A ciência do marketing, no entanto, nos mostra que ali não existe um milímetro de acaso. O verde do gramado absorve a luz de uma forma específica; o magenta, por estar no extremo oposto do círculo cromático, gera o maior contraste visual possível para os olhos e para as transmissões de TV. Quando o atleta corre, o ponto que mais brilha na tela é o produto que precisa ser vendido.
Descobrir que marcas concorrentes que faturam bilhões usam as mesmas agências de previsão de tendências com anos de antecedência para ditar o que vai para a vitrine nos faz pensar. Até que ponto o esporte ainda é sobre superação, suor e amor à camisa? A verdade incômoda é que os jogadores, em grande medida, transformaram-se em manequins de luxo encarregados de desfilar o verdadeiro astro do evento: o produto do patrocinador. As marcas que financiam as confederações e os clubes detêm um poder invisível, mas gigantesco, que frequentemente influencia quem é convocado, quem é escalado e quem precisa estar sob os refletores, pouco importando o resultado de campo, desde que as metas de vendas da temporada sejam batidas. O esporte virou uma feira de negócios disfarçada de espetáculo, e a arquibancada raramente percebe que está torcendo por um comercial de televisão e nem sempre sendo fiel a si mesma.
A colonização do nosso gosto
O cenário se torna ainda mais profundo quando percebemos que essa mesma lógica governa quase todas as áreas da nossa vida fora dos estádios. Nós gostamos de acreditar que somos totalmente donos do nosso livre-arbítrio, mas a nossa espontaneidade vem sendo sutilmente colonizada todos os dias. Fomos direcionados a consumir o estilo de música que os algoritmos decidem viralizar em vídeos de poucos segundos. Somos induzidos a desejar o prato de comida da moda porque ele é “instagramável”, a adotar os mesmos hobbies sazonais e a vestir as mesmas roupas sob a justificativa de estarmos atualizados, tendo condições de pagar por aquilo e acima de tudo, pertencer..
Sem que a gente note, fomos transformados em uma massa homogênea de consumidores previsíveis. O mercado cria a necessidade, dita a tendência e nós, obedientemente, clicamos no botão de comprar, achando que estamos fazendo uma escolha autêntica e, pior, acreditando que queremos ou precisamos daquilo. Viver sob essa correnteza cansa, adoece e nos afasta de quem realmente somos, sacrificando a nossa originalidade no altar do lucro das grandes corporações.
O manifesto pela originalidade
A boa notícia é que o controle para quebrar essa engrenagem está nas nossas mãos, e a virada de jogo começa na nossa capacidade de resgatar a curiosidade e ser fiel a si mesmo. O bem-estar possível nasce quando decidimos, conscientemente, dar um passo para fora daquilo que a maioria está consumindo. Que tal começar a explorar o mundo de possibilidades que existe além do que o algoritmo te empurra?
Experimente desligar as playlists automáticas e procure descobrir ritmos novos, instrumentos diferentes e artistas independentes que cantam por arte, não por métrica. Na próxima refeição, dê uma chance àquele restaurante de bairro, experimente uma receita com ingredientes locais que você nunca pediria normalmente ou a culinária de um país a qual você não está acostumado. Quando precisar comprar algo, faça o exercício de buscar o pequeno produtor, o artesão da sua região ou marcas menores que nasceram de um propósito real, que tenham posicionamento e valores, e não apenas a obsessão pelo lucro desenfreado. Ser original e fiel a si mesmo na sociedade atual é um ato de coragem. Ao escolher caminhos menos trilhados e ser fiel a si mesmo, você descobre que a vida é infinitamente mais colorida, rica e verdadeira do que os tons planejados por qualquer departamento de marketing.



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