Bem Estar Possível

Pausa, respiro e o pé no chão

  • Do atrito ao aconchego: as surpresas da convivência com pets

    Do atrito ao aconchego: as surpresas da convivência com pets

    Quem olha de fora — ou quem cai na armadilha de achar que a vida precisa ser um comercial de margarina — imagina que a convivência com vários animais de estimação é uma linha reta de harmonia ininterrupta. A realidade, no entanto, é bem mais parecida com uma comédia de costumes. Aqui em casa, por exemplo, tenho quatro cães e um gato que decide, soberano, fazer parte da mesma matilha, transitando entre eles com a maior naturalidade.

    Nenhum deles foi escolhido por catálogo ou por preferência estética. Todos chegaram até mim porque precisavam de um lar, de socorro e de um teto. E com a chegada de cada um, a nossa rotina virou do avesso. É preciso se adaptar aos novos hábitos, aos medos antigos, aos traumas que eles trazem na bagagem e à tensão inicial de saber se vão ou não se tolerar debaixo do mesmo teto. Aqui vou abrir um parêntese para uma dica: sempre que possível, levo os cachorros que já moram na casa para conhecer o novo membro da matilha em um lugar neutro. Assim estão menos territorialistas e mais abertos a conhecer outros cães. Também é interessante fazer uma camihada com todos juntos.

    Agora, voltando ao tema deste texto, a cena aconteceu há pouco na cozinha, em plena luz do dia. Olhei e lá estava ela: a nossa “fiapo de manga”, aquela mesma fêmea pequenininha que passa o dia inteiro rabugenta com os outros, rosnando como um lobo feroz quando ousam se aproximar da minha cama, sentadinha, mansinha e encostada justamente na cachorrinha com quem mais cisma e implica. Infelizmente, a câmera do celular não foi rápida o suficiente para registrar o flagra, mas a imagem ficou gravada na memória como um abraço silencioso.

    A ilusão de que tudo precisa ser fácil

    A gente tem uma resistência enorme ao atrito. Quando duas personalidades batem de frente — seja entre os animais ou entre nós, seres humanos —, logo rotulamos a situação como um erro ou um fracasso. Achamos que se houve estranhamento no começo, eles nunca vão se dar bem.

    Mas a convivência real não se constrói na ausência de conflitos; ela se faz na persistência do afeto. A mesma cachorrinha que hoje rosna para defender o seu espaço é a que, minutos depois, escolhe encostar o corpo no daquela a quem tanto rejeitava. Isso não significa que os problemas sumiram, que os rosnados acabaram para sempre ou que a rotina é um mar de rosas. Significa apenas que o amor autêntico tem camadas. Ele tolera o estresse, suporta a adaptação e cria pontes onde antes só havia cerca.

    Saber que deu certo não tem preço

    Olhar para essa trégua silenciosa na cozinha traz uma paz que o dinheiro não compra. Saber que a gente abriu a porta, acolheu quem não tinha para onde ir, atravessou os dias difíceis de adaptação e conseguiu fazer dar certo é uma das recompensas mais bonitas da vida.

    O bem-estar possível não é a ausência de rugas, de poeira ou de atritos. É a coragem de abraçar o caos do cotidiano, aceitar as contradições alheias e perceber que, quando a gente menos espera, a vida se ajeita, o frio abranda e o aconchego sempre encontra um jeito de acontecer.

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Pausa, respiro e o pé no chão

Tag: Vida Real com Cães e Gatos

  • Do atrito ao aconchego: as surpresas da convivência com pets

    Do atrito ao aconchego: as surpresas da convivência com pets

    Quem olha de fora — ou quem cai na armadilha de achar que a vida precisa ser um comercial de margarina — imagina que a convivência com vários animais de estimação é uma linha reta de harmonia ininterrupta. A realidade, no entanto, é bem mais parecida com uma comédia de costumes. Aqui em casa, por exemplo, tenho quatro cães e um gato que decide, soberano, fazer parte da mesma matilha, transitando entre eles com a maior naturalidade.

    Nenhum deles foi escolhido por catálogo ou por preferência estética. Todos chegaram até mim porque precisavam de um lar, de socorro e de um teto. E com a chegada de cada um, a nossa rotina virou do avesso. É preciso se adaptar aos novos hábitos, aos medos antigos, aos traumas que eles trazem na bagagem e à tensão inicial de saber se vão ou não se tolerar debaixo do mesmo teto. Aqui vou abrir um parêntese para uma dica: sempre que possível, levo os cachorros que já moram na casa para conhecer o novo membro da matilha em um lugar neutro. Assim estão menos territorialistas e mais abertos a conhecer outros cães. Também é interessante fazer uma camihada com todos juntos.

    Agora, voltando ao tema deste texto, a cena aconteceu há pouco na cozinha, em plena luz do dia. Olhei e lá estava ela: a nossa “fiapo de manga”, aquela mesma fêmea pequenininha que passa o dia inteiro rabugenta com os outros, rosnando como um lobo feroz quando ousam se aproximar da minha cama, sentadinha, mansinha e encostada justamente na cachorrinha com quem mais cisma e implica. Infelizmente, a câmera do celular não foi rápida o suficiente para registrar o flagra, mas a imagem ficou gravada na memória como um abraço silencioso.

    A ilusão de que tudo precisa ser fácil

    A gente tem uma resistência enorme ao atrito. Quando duas personalidades batem de frente — seja entre os animais ou entre nós, seres humanos —, logo rotulamos a situação como um erro ou um fracasso. Achamos que se houve estranhamento no começo, eles nunca vão se dar bem.

    Mas a convivência real não se constrói na ausência de conflitos; ela se faz na persistência do afeto. A mesma cachorrinha que hoje rosna para defender o seu espaço é a que, minutos depois, escolhe encostar o corpo no daquela a quem tanto rejeitava. Isso não significa que os problemas sumiram, que os rosnados acabaram para sempre ou que a rotina é um mar de rosas. Significa apenas que o amor autêntico tem camadas. Ele tolera o estresse, suporta a adaptação e cria pontes onde antes só havia cerca.

    Saber que deu certo não tem preço

    Olhar para essa trégua silenciosa na cozinha traz uma paz que o dinheiro não compra. Saber que a gente abriu a porta, acolheu quem não tinha para onde ir, atravessou os dias difíceis de adaptação e conseguiu fazer dar certo é uma das recompensas mais bonitas da vida.

    O bem-estar possível não é a ausência de rugas, de poeira ou de atritos. É a coragem de abraçar o caos do cotidiano, aceitar as contradições alheias e perceber que, quando a gente menos espera, a vida se ajeita, o frio abranda e o aconchego sempre encontra um jeito de acontecer.