Bem Estar Possível

Pausa, respiro e o pé no chão

  • O sol do inverno e a orquídea amarela: o valor de habitar a própria vida

    O sol do inverno e a orquídea amarela: o valor de habitar a própria vida

    Hoje à tarde, aproveitei uma trégua do frio intenso para me sentar ao sol no pátio da frente. A ideia era simples: permitir que os cachorros e o gato saíssem um pouco da rotina do interior da casa para esticarem as patinhas e aproveitarem o calorzinho no pelo. Bem na minha frente, em destaque, repousa um vaso com uma orquídea Cymbidium amarela em plena e radiante floração — um espetáculo que, no nosso clima frio, só acontece entre os meses de junho e setembro. Ao olhar para o amarelo vivo das pétalas, veio-me à memória a lembrança da minha mãe. Ela achava essa orquídea deslumbrante, mas frequentemente se lamentava de que ela desabrochava apenas uma vez ao ano. Na época, eu costumava responder que esse era o seu ciclo natural e que, na vida, tudo passa.

    Essa frase simples esconde uma das lições mais profundas da existência. O “tudo passa” serve para nos alertar sobre as coisas boas, trazendo aquela nostalgia inevitável quando um momento feliz se encerra, mas serve principalmente como consolo para os dias difíceis. Quando atravessamos uma tempestade emocional ou uma fase dolorosa, a nossa mente tende a criar a ilusão de que a dor durará para sempre. As plantas, no seu silêncio sábio, estão ali para nos lembrar de que a vida é breve e de que precisamos aprender a honrar e cultivar cada instante.

    A armadilha das coisas grandiosas

    Apreciar o tempo não significa que precisemos estar constantemente em busca de feitos grandiosos ou de experiências extraordinárias. Trata-se de algo muito mais simples e revolucionário: aprender a nos sentirmos bem dentro da nossa própria vida cotidiana. Criou-se um hábito moderno de condicionar a felicidade aos picos da rotina — à viagem tão esperada, ao evento do final de semana, às grandes celebrações. Vivendo dessa forma, as pessoas passam a odiar as terças-feiras, a rejeitar os dias cinzentos e a vegetar nos intervalos entre uma conquista e outra.

    O bem-estar possível nos convida a amar os dias de sol radiante sem, contudo, cultivar o ódio pelos dias de chuva. Exige a maturidade de compreender que a Cymbidium amarela só dará o seu espetáculo no rigor do inverno, mas que, quando a sua flor secar e ceder, outras espécies florescerão na primavera, no verão e no outono. Todas as estações possuem a sua própria beleza, a sua utilidade e, inevitavelmente, o seu fim.

    Habitar o próprio presente

    Observar os meus animais deitados ao sol, a cor vibrante da orquídea e o vento frio que contrasta com o calor no rosto me faz ter a certeza de que a vida acontece agora, nas frestas da rotina. Não precisamos de um palco iluminado para estarmos em paz; precisamos apenas da coragem de estar presentes naquilo que estamos vivendo.

    Que a gente possa aprender a respeitar o tempo das nossas próprias flores e das nossas próprias pausas. Que possamos olhar para o desabrochar de uma orquídea uma vez ao ano não com a ganância de quem quer que ela dure para sempre, mas com a gratidão humilde de quem sabe que a beleza da vida mora justamente na sua brevidade. Afinal, a felicidade real não está no destino final, mas na paz de saber habitar, com afeto e presença, o único dia que nos pertence: o dia de hoje.

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pausa, respiro e o pé no chão

Tag: Sentir bem na própria vida

  • O sol do inverno e a orquídea amarela: o valor de habitar a própria vida

    O sol do inverno e a orquídea amarela: o valor de habitar a própria vida

    Hoje à tarde, aproveitei uma trégua do frio intenso para me sentar ao sol no pátio da frente. A ideia era simples: permitir que os cachorros e o gato saíssem um pouco da rotina do interior da casa para esticarem as patinhas e aproveitarem o calorzinho no pelo. Bem na minha frente, em destaque, repousa um vaso com uma orquídea Cymbidium amarela em plena e radiante floração — um espetáculo que, no nosso clima frio, só acontece entre os meses de junho e setembro. Ao olhar para o amarelo vivo das pétalas, veio-me à memória a lembrança da minha mãe. Ela achava essa orquídea deslumbrante, mas frequentemente se lamentava de que ela desabrochava apenas uma vez ao ano. Na época, eu costumava responder que esse era o seu ciclo natural e que, na vida, tudo passa.

    Essa frase simples esconde uma das lições mais profundas da existência. O “tudo passa” serve para nos alertar sobre as coisas boas, trazendo aquela nostalgia inevitável quando um momento feliz se encerra, mas serve principalmente como consolo para os dias difíceis. Quando atravessamos uma tempestade emocional ou uma fase dolorosa, a nossa mente tende a criar a ilusão de que a dor durará para sempre. As plantas, no seu silêncio sábio, estão ali para nos lembrar de que a vida é breve e de que precisamos aprender a honrar e cultivar cada instante.

    A armadilha das coisas grandiosas

    Apreciar o tempo não significa que precisemos estar constantemente em busca de feitos grandiosos ou de experiências extraordinárias. Trata-se de algo muito mais simples e revolucionário: aprender a nos sentirmos bem dentro da nossa própria vida cotidiana. Criou-se um hábito moderno de condicionar a felicidade aos picos da rotina — à viagem tão esperada, ao evento do final de semana, às grandes celebrações. Vivendo dessa forma, as pessoas passam a odiar as terças-feiras, a rejeitar os dias cinzentos e a vegetar nos intervalos entre uma conquista e outra.

    O bem-estar possível nos convida a amar os dias de sol radiante sem, contudo, cultivar o ódio pelos dias de chuva. Exige a maturidade de compreender que a Cymbidium amarela só dará o seu espetáculo no rigor do inverno, mas que, quando a sua flor secar e ceder, outras espécies florescerão na primavera, no verão e no outono. Todas as estações possuem a sua própria beleza, a sua utilidade e, inevitavelmente, o seu fim.

    Habitar o próprio presente

    Observar os meus animais deitados ao sol, a cor vibrante da orquídea e o vento frio que contrasta com o calor no rosto me faz ter a certeza de que a vida acontece agora, nas frestas da rotina. Não precisamos de um palco iluminado para estarmos em paz; precisamos apenas da coragem de estar presentes naquilo que estamos vivendo.

    Que a gente possa aprender a respeitar o tempo das nossas próprias flores e das nossas próprias pausas. Que possamos olhar para o desabrochar de uma orquídea uma vez ao ano não com a ganância de quem quer que ela dure para sempre, mas com a gratidão humilde de quem sabe que a beleza da vida mora justamente na sua brevidade. Afinal, a felicidade real não está no destino final, mas na paz de saber habitar, com afeto e presença, o único dia que nos pertence: o dia de hoje.