Bem Estar Possível

Pausa, respiro e o pé no chão

  • O mercado da ilusão: por que o botão de seguir virou um espelho dos nossos desejos?

    O mercado da ilusão: por que o botão de seguir virou um espelho dos nossos desejos?

    Passar os olhos pelas redes sociais hoje em dia nos joga direto no meio de grandes debates e polarizações sobre as figuras que lideram a internet no Brasil. Nomes que acumulam dezenas de milhões de seguidores, tornaram-se objetos de amor e ódio na mesma medida. Quando a gente decide seguir alguém na internet, o natural seria avaliar que tipo de pessoa ela é no mundo real — olhar não apenas para o que ela fala, mas principalmente para como age, se tem ética, se espalha cultura, ciência ou bons exemplos. Mas a realidade nos mostra que a grande massa prefere caminhar na direção oposta, dando audiência para pessoas que, muitas vezes, se envolvem em escândalos, investigações de sonegação e lavagem de dinheiro, ignorando completamente qualquer falha de caráter, pelo contrário, defendendo esses personagens como se fossem deuses.

    Essa falta de filtro acontece porque as pessoas não seguem esses influenciadores para aprender algo com eles, mas sim porque desejam ser como eles. O botão de “seguir” virou um espelho das frustrações e dos desejos de consumo de quem está assistindo. No caso de figuras masculinas, o que se vende é a fantasia de ganhar rios de dinheiro sem precisar pegar no pesado, a liberdade de passar noites em maratonas de jogos e viver cercado de privilégios sem dever satisfações a ninguém. Para quem enfrenta uma rotina dura de trabalho e não vê saídas, consumir essa ostentação é uma forma de viver o luxo por procuração.

    A farsa da simplicidade e o comércio da aparência

    Do outro lado, influenciadoras dominam a arte de criar um teatro muito bem ensaiado. Ao mesmo tempo em que ostentam jatinhos, mansões e marcas caríssimas, elas tentam fazer o papel de uma camponesa inocente, uma pessoa comum que apenas cuida da família e deu sorte na vida. Essa falsa simplicidade é uma estratégia de marketing muito bem pensada para atrair quem deseja uma vida de aparências. A seguidora comum passa a acreditar que, se comprar a base, o perfume ou o estilo de vida que aquela influenciadora vende, estará comprando também um pedacinho daquela felicidade perfeita de comercial de televisão. O “ter” passou a valer muito mais do que o “ser”, e o sucesso financeiro virou uma autorização para ignorar a falta de valores.

    O cenário se torna ainda mais preocupante quando percebemos que esse modelo de negócio está engolindo os espaços tradicionais de trabalho. Hoje, influenciadores são escalados para filmes, novelas e até para o jornalismo, não por causa da sua competência, do seu talento ou de anos de estudo, mas puramente pelo seu número de seguidores. A indústria cultural deixou de buscar os melhores profissionais para buscar os maiores vendedores de anúncios. O profissional que dedicou a vida a estudar teatro ou a investigar notícias com seriedade é deixado de lado para que um rosto famoso da internet garanta o público que o patrocinador quer alcançar.

    Limpar o feed para proteger a mente

    Essa inversão de valores adoece a nossa sociedade e destrói o nosso bem-estar possível, porque nos empurra para uma busca sem fim por uma vida falsa que só existe na tela do celular. Quando a gente aceita que o número de seguidores vale mais do que o conhecimento e a ética, nós nos tornamos cúmplices de uma cultura que valoriza a esperteza em vez do esforço real.

    A mudança desse cenário, no entanto, começa no controle que temos em nossas mãos. O nosso feed de notícias é como a nossa casa: nós escolhemos quem deixamos entrar. Proteger a nossa saúde mental em meio a esse caldeirão de futilidades exige a coragem de parar de dar audiência para quem usa o mau caráter como trampolim para o sucesso. O caminho para uma vida mais consciente e verdadeira é parar de seguir quem nos vende ilusões e passar a valorizar quem nos entrega realidade, sabendo que o clique que a gente dá hoje é o que decide o tipo de valores que vão governar o mundo de amanhã.

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  • O mercado da ilusão: a dignidade perdida no transe das telas

    O mercado da ilusão: a dignidade perdida no transe das telas

    Quem busca o bem-estar e a lucidez nos dias de hoje precisa, inevitavelmente, fazer uma rota de fuga dos grandes centros urbanos da internet. Cada rede social desenvolveu sua própria neurose coletiva, e fingir que está tudo bem enquanto navegamos por elas é fechar os olhos para um diagnóstico óbvio: o mercado da ilusão nas redes está adoecendo a nossa sociedade em praça pública.

    Se o Instagram virou a vitrine oficial da perfeição plástica, onde as vidas parecem editadas por um comercial de margarina, basta mudar de calçada para o cenário mudar de figura. O antigo Twitter, hoje X, transformou-se em um território sem lei, um ringue onde o ódio e a polarização ditam as regras. No Facebook, o que sobrou foi um mural de fofocas locais e notícias trágicas compartilhadas em looping.

    No entanto, o fenômeno mais melancólico da nossa era talvez esteja acontecendo no TikTok. Ali, a promessa de “espontaneidade” deu lugar a uma engrenagem sutil e cruel de exploração humana.

    A performance da naturalidade e o comércio de bugigangas

    Andando pelo feed dos vídeos curtos, o que vemos não é a vida real, mas pessoas simples, muitas vezes humildes, forçando uma barra enorme para parecerem naturais e à vontade diante da câmera. Elas passam horas em transmissões ao vivo, repetindo gestos mecânicos, fazendo dancinhas ou tentando vender quinquilharias industriais na esperança de ganhar alguns trocados a mais no fim do mês.

    O que há de mais triste nessa dinâmica não é o esforço do trabalhador para sobreviver, mas a ilusão que o move. Essas pessoas foram capturadas por discursos de espertos — “gurus” de marketing e enriquecimento rápido — que ostentam vidas milionárias fictícias na internet, prometendo que qualquer um pode alcançar o topo usando uma suposta estratégia infalível. É a monetização da esperança de quem tem pouco.

    O tribunal do ressentimento e o pecado da felicidade

    Mas o verdadeiro combustível que alimenta essa máquina é o ressentimento de quem assiste. Basta abrir qualquer seção de comentários para encontrar uma massa amarga, pronta para agredir gratuitamente quem não se encaixa nas regras invisíveis da tela. Os linchamentos virtuais acontecem porque alguém não tem a idade dita “adequada”, o corpo idealizado pelo filtro ou o comportamento dócil que a boiada espera.

    Nesse tribunal digital, comete o maior dos pecados quem tem a coragem de dar a cara a tapa e ousar ser feliz de verdade. A internet não perdoa a liberdade. Esse ataque é ainda mais feroz quando o alvo são mulheres que passaram dos trinta anos, que estão acima do peso imposto pelas revistas, mas que escolheram ser livres e independentes. O algoritmo e os ressentidos entram em pânico diante de mulheres que, acima de tudo, leem, pensam e questionam. A autonomia mental é uma afronta para quem vive domesticado pelas curtidas.

    Os deuses de barro e seus exércitos digitais

    Enquanto a autenticidade real é apedrejada nos comentários, o topo da pirâmide é ocupado por influenciadores que mal conseguem desenvolver um pensamento linear ou uma reflexão profunda sobre o mundo. Ainda assim, amealham exércitos de seguidores fiéis.

    Criou-se uma cultura de adoração a esses deuses de barro. Se alguém ousa questionar a superficialidade ou os valores dessas figuras, a horda sai em defesa com uma agressividade assustadora, como se estivessem protegendo uma divindade real. Perdeu-se o filtro da autocrítica. O público entrega seu tempo, sua atenção e sua mente para quem não tem nada a oferecer além de entretenimento vazio.

    Resgatar o chão da realidade

    O bem-estar possível não sobrevive dentro dessas lógicas. Não há saúde mental que resista a um ambiente que exige perfeição no Instagram, agressividade no X, humilhação coreografada no TikTok ou linchamento de mentes livres nos comentários.

    O nosso maior ato de resistência hoje é fincar os pés na realidade. É valorizar o pensamento crítico, a conversa sem roteiro na cozinha de casa, o trabalho que tem substância e as relações que não precisam de telas para existir. Precisamos parar de jogar pérolas aos porcos nos comentários alheios, fechar os aplicativos e voltar a cuidar do nosso próprio chão, onde a nossa inteligência e a nossa liberdade não dependem da aprovação de nenhum zumbi digital.

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  • O transe das redes e o resgate da nossa humanidade

    O transe das redes e o resgate da nossa humanidade

    Recentemente, acompanhando o crescimento do perfil de um projeto novo, decidi olhar de perto quem eram as pessoas que estavam chegando. O número de seguidores quase dobrou em uma semana, o que de início traz uma sensação boa de alcance. Porém, quando saímos dos gráficos e olhamos para as fotos e biografias daquelas contas, o choque de realidade é inevitável.

    Encontrei perfis que operam em um contraste assustador. Pessoas com diploma universitário, que escrevem biografias doces e colocam com carinho o nome de seus cachorros no perfil. No entanto, na linha do tempo, essas mesmas pessoas só compartilham conteúdos carregados de raiva, teorias conspiratórias e uma divisão violenta entre “nós e eles”.

    O modo zumbi nas redes sociais

    Parece um estado de transe coletivo. É como se estivessem operando em um modo psicológico de zumbis digitais, onde a capacidade cognitiva deu lugar a um estado de alerta permanente. Para essas pessoas, o mundo virou um tabuleiro de guerra entre o bem e o mal. Elas se enxergam como os escolhidos para derrotar os inimigos que enxergam em cada esquina.

    Infelizmente, nessa dinâmica tribal, perde-se o básico: a capacidade de raciocinar por conta própria, de questionar, de duvidar e, principalmente, de sentir o outro de verdade. Cria-se uma casca tão rígida que a chance de uma mudança real ali é quase nula. O ódio virou um vício diário alimentado por algoritmos que lucram com o nosso pior lado.

    No começo, a gente sente o impulso de querer fazer a diferença, de tentar iluminar esse espaço de alguma forma. Mas o realismo nos mostra que o nosso papel não é o de resgatar quem escolheu o barulho da guerra.

    Onde mora a verdadeira espiritualidade

    A verdadeira espiritualidade, a fé e o bem-estar real não se sustentam em discursos de exclusão ou em poses comerciais de margarina. Eles se manifestam no silêncio do cotidiano, no respeito a quem pensa diferente, no zelo com o trabalho e no cuidado genuíno com o bicho que dorme ao nosso lado.

    Não vamos mudar quem já entregou a sua capacidade de pensar para o transe das redes. O que nos cabe é manter os nossos espaços acesos e coerentes. O blog, a marca, as nossas conversas na cozinha — tudo isso precisa continuar sendo um refúgio de lucidez para quem cansar do caos e decidir voltar a sentir a vida de verdade.

    Uma nota sobre a imagem deste post: Talvez você se pergunte o que uma tecelã e seu tear têm a ver com o transe das redes sociais. A resposta está no contraste. Teceres exige presença, paciência, foco e tempo — tudo o que o algoritmo tenta nos roubar. Enquanto o mundo digital nos quer rápidos, superficiais e reativos, o trabalho manual nos lembra do valor de ordenar os fios, desacelerar e cuidar de cada detalhe com zelo. Que a gente possa, todos os dias, escolher tecer a nossa própria lucidez.

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Pausa, respiro e o pé no chão

Tag: Redes Sociais

  • O mercado da ilusão: por que o botão de seguir virou um espelho dos nossos desejos?

    O mercado da ilusão: por que o botão de seguir virou um espelho dos nossos desejos?

    Passar os olhos pelas redes sociais hoje em dia nos joga direto no meio de grandes debates e polarizações sobre as figuras que lideram a internet no Brasil. Nomes que acumulam dezenas de milhões de seguidores, tornaram-se objetos de amor e ódio na mesma medida. Quando a gente decide seguir alguém na internet, o natural seria avaliar que tipo de pessoa ela é no mundo real — olhar não apenas para o que ela fala, mas principalmente para como age, se tem ética, se espalha cultura, ciência ou bons exemplos. Mas a realidade nos mostra que a grande massa prefere caminhar na direção oposta, dando audiência para pessoas que, muitas vezes, se envolvem em escândalos, investigações de sonegação e lavagem de dinheiro, ignorando completamente qualquer falha de caráter, pelo contrário, defendendo esses personagens como se fossem deuses.

    Essa falta de filtro acontece porque as pessoas não seguem esses influenciadores para aprender algo com eles, mas sim porque desejam ser como eles. O botão de “seguir” virou um espelho das frustrações e dos desejos de consumo de quem está assistindo. No caso de figuras masculinas, o que se vende é a fantasia de ganhar rios de dinheiro sem precisar pegar no pesado, a liberdade de passar noites em maratonas de jogos e viver cercado de privilégios sem dever satisfações a ninguém. Para quem enfrenta uma rotina dura de trabalho e não vê saídas, consumir essa ostentação é uma forma de viver o luxo por procuração.

    A farsa da simplicidade e o comércio da aparência

    Do outro lado, influenciadoras dominam a arte de criar um teatro muito bem ensaiado. Ao mesmo tempo em que ostentam jatinhos, mansões e marcas caríssimas, elas tentam fazer o papel de uma camponesa inocente, uma pessoa comum que apenas cuida da família e deu sorte na vida. Essa falsa simplicidade é uma estratégia de marketing muito bem pensada para atrair quem deseja uma vida de aparências. A seguidora comum passa a acreditar que, se comprar a base, o perfume ou o estilo de vida que aquela influenciadora vende, estará comprando também um pedacinho daquela felicidade perfeita de comercial de televisão. O “ter” passou a valer muito mais do que o “ser”, e o sucesso financeiro virou uma autorização para ignorar a falta de valores.

    O cenário se torna ainda mais preocupante quando percebemos que esse modelo de negócio está engolindo os espaços tradicionais de trabalho. Hoje, influenciadores são escalados para filmes, novelas e até para o jornalismo, não por causa da sua competência, do seu talento ou de anos de estudo, mas puramente pelo seu número de seguidores. A indústria cultural deixou de buscar os melhores profissionais para buscar os maiores vendedores de anúncios. O profissional que dedicou a vida a estudar teatro ou a investigar notícias com seriedade é deixado de lado para que um rosto famoso da internet garanta o público que o patrocinador quer alcançar.

    Limpar o feed para proteger a mente

    Essa inversão de valores adoece a nossa sociedade e destrói o nosso bem-estar possível, porque nos empurra para uma busca sem fim por uma vida falsa que só existe na tela do celular. Quando a gente aceita que o número de seguidores vale mais do que o conhecimento e a ética, nós nos tornamos cúmplices de uma cultura que valoriza a esperteza em vez do esforço real.

    A mudança desse cenário, no entanto, começa no controle que temos em nossas mãos. O nosso feed de notícias é como a nossa casa: nós escolhemos quem deixamos entrar. Proteger a nossa saúde mental em meio a esse caldeirão de futilidades exige a coragem de parar de dar audiência para quem usa o mau caráter como trampolim para o sucesso. O caminho para uma vida mais consciente e verdadeira é parar de seguir quem nos vende ilusões e passar a valorizar quem nos entrega realidade, sabendo que o clique que a gente dá hoje é o que decide o tipo de valores que vão governar o mundo de amanhã.

  • O mercado da ilusão: a dignidade perdida no transe das telas

    O mercado da ilusão: a dignidade perdida no transe das telas

    Quem busca o bem-estar e a lucidez nos dias de hoje precisa, inevitavelmente, fazer uma rota de fuga dos grandes centros urbanos da internet. Cada rede social desenvolveu sua própria neurose coletiva, e fingir que está tudo bem enquanto navegamos por elas é fechar os olhos para um diagnóstico óbvio: o mercado da ilusão nas redes está adoecendo a nossa sociedade em praça pública.

    Se o Instagram virou a vitrine oficial da perfeição plástica, onde as vidas parecem editadas por um comercial de margarina, basta mudar de calçada para o cenário mudar de figura. O antigo Twitter, hoje X, transformou-se em um território sem lei, um ringue onde o ódio e a polarização ditam as regras. No Facebook, o que sobrou foi um mural de fofocas locais e notícias trágicas compartilhadas em looping.

    No entanto, o fenômeno mais melancólico da nossa era talvez esteja acontecendo no TikTok. Ali, a promessa de “espontaneidade” deu lugar a uma engrenagem sutil e cruel de exploração humana.

    A performance da naturalidade e o comércio de bugigangas

    Andando pelo feed dos vídeos curtos, o que vemos não é a vida real, mas pessoas simples, muitas vezes humildes, forçando uma barra enorme para parecerem naturais e à vontade diante da câmera. Elas passam horas em transmissões ao vivo, repetindo gestos mecânicos, fazendo dancinhas ou tentando vender quinquilharias industriais na esperança de ganhar alguns trocados a mais no fim do mês.

    O que há de mais triste nessa dinâmica não é o esforço do trabalhador para sobreviver, mas a ilusão que o move. Essas pessoas foram capturadas por discursos de espertos — “gurus” de marketing e enriquecimento rápido — que ostentam vidas milionárias fictícias na internet, prometendo que qualquer um pode alcançar o topo usando uma suposta estratégia infalível. É a monetização da esperança de quem tem pouco.

    O tribunal do ressentimento e o pecado da felicidade

    Mas o verdadeiro combustível que alimenta essa máquina é o ressentimento de quem assiste. Basta abrir qualquer seção de comentários para encontrar uma massa amarga, pronta para agredir gratuitamente quem não se encaixa nas regras invisíveis da tela. Os linchamentos virtuais acontecem porque alguém não tem a idade dita “adequada”, o corpo idealizado pelo filtro ou o comportamento dócil que a boiada espera.

    Nesse tribunal digital, comete o maior dos pecados quem tem a coragem de dar a cara a tapa e ousar ser feliz de verdade. A internet não perdoa a liberdade. Esse ataque é ainda mais feroz quando o alvo são mulheres que passaram dos trinta anos, que estão acima do peso imposto pelas revistas, mas que escolheram ser livres e independentes. O algoritmo e os ressentidos entram em pânico diante de mulheres que, acima de tudo, leem, pensam e questionam. A autonomia mental é uma afronta para quem vive domesticado pelas curtidas.

    Os deuses de barro e seus exércitos digitais

    Enquanto a autenticidade real é apedrejada nos comentários, o topo da pirâmide é ocupado por influenciadores que mal conseguem desenvolver um pensamento linear ou uma reflexão profunda sobre o mundo. Ainda assim, amealham exércitos de seguidores fiéis.

    Criou-se uma cultura de adoração a esses deuses de barro. Se alguém ousa questionar a superficialidade ou os valores dessas figuras, a horda sai em defesa com uma agressividade assustadora, como se estivessem protegendo uma divindade real. Perdeu-se o filtro da autocrítica. O público entrega seu tempo, sua atenção e sua mente para quem não tem nada a oferecer além de entretenimento vazio.

    Resgatar o chão da realidade

    O bem-estar possível não sobrevive dentro dessas lógicas. Não há saúde mental que resista a um ambiente que exige perfeição no Instagram, agressividade no X, humilhação coreografada no TikTok ou linchamento de mentes livres nos comentários.

    O nosso maior ato de resistência hoje é fincar os pés na realidade. É valorizar o pensamento crítico, a conversa sem roteiro na cozinha de casa, o trabalho que tem substância e as relações que não precisam de telas para existir. Precisamos parar de jogar pérolas aos porcos nos comentários alheios, fechar os aplicativos e voltar a cuidar do nosso próprio chão, onde a nossa inteligência e a nossa liberdade não dependem da aprovação de nenhum zumbi digital.

  • O transe das redes e o resgate da nossa humanidade

    O transe das redes e o resgate da nossa humanidade

    Recentemente, acompanhando o crescimento do perfil de um projeto novo, decidi olhar de perto quem eram as pessoas que estavam chegando. O número de seguidores quase dobrou em uma semana, o que de início traz uma sensação boa de alcance. Porém, quando saímos dos gráficos e olhamos para as fotos e biografias daquelas contas, o choque de realidade é inevitável.

    Encontrei perfis que operam em um contraste assustador. Pessoas com diploma universitário, que escrevem biografias doces e colocam com carinho o nome de seus cachorros no perfil. No entanto, na linha do tempo, essas mesmas pessoas só compartilham conteúdos carregados de raiva, teorias conspiratórias e uma divisão violenta entre “nós e eles”.

    O modo zumbi nas redes sociais

    Parece um estado de transe coletivo. É como se estivessem operando em um modo psicológico de zumbis digitais, onde a capacidade cognitiva deu lugar a um estado de alerta permanente. Para essas pessoas, o mundo virou um tabuleiro de guerra entre o bem e o mal. Elas se enxergam como os escolhidos para derrotar os inimigos que enxergam em cada esquina.

    Infelizmente, nessa dinâmica tribal, perde-se o básico: a capacidade de raciocinar por conta própria, de questionar, de duvidar e, principalmente, de sentir o outro de verdade. Cria-se uma casca tão rígida que a chance de uma mudança real ali é quase nula. O ódio virou um vício diário alimentado por algoritmos que lucram com o nosso pior lado.

    No começo, a gente sente o impulso de querer fazer a diferença, de tentar iluminar esse espaço de alguma forma. Mas o realismo nos mostra que o nosso papel não é o de resgatar quem escolheu o barulho da guerra.

    Onde mora a verdadeira espiritualidade

    A verdadeira espiritualidade, a fé e o bem-estar real não se sustentam em discursos de exclusão ou em poses comerciais de margarina. Eles se manifestam no silêncio do cotidiano, no respeito a quem pensa diferente, no zelo com o trabalho e no cuidado genuíno com o bicho que dorme ao nosso lado.

    Não vamos mudar quem já entregou a sua capacidade de pensar para o transe das redes. O que nos cabe é manter os nossos espaços acesos e coerentes. O blog, a marca, as nossas conversas na cozinha — tudo isso precisa continuar sendo um refúgio de lucidez para quem cansar do caos e decidir voltar a sentir a vida de verdade.

    Uma nota sobre a imagem deste post: Talvez você se pergunte o que uma tecelã e seu tear têm a ver com o transe das redes sociais. A resposta está no contraste. Teceres exige presença, paciência, foco e tempo — tudo o que o algoritmo tenta nos roubar. Enquanto o mundo digital nos quer rápidos, superficiais e reativos, o trabalho manual nos lembra do valor de ordenar os fios, desacelerar e cuidar de cada detalhe com zelo. Que a gente possa, todos os dias, escolher tecer a nossa própria lucidez.