Bem Estar Possível

Pausa, respiro e o pé no chão

  • O preço de ser “perfeita” e a audácia de voltar a incomodar

    O preço de ser “perfeita” e a audácia de voltar a incomodar

    Passar os olhos pelas redes sociais às vezes nos joga diante de desabafos que funcionam como um espelho retrovisor. Há pouco tempo, li o relato de uma mulher que contava como a sua infância e juventude foram marcadas pela coragem de falar o que pensava, questionar o óbvio e defender suas opiniões. Como esse comportamento nem sempre era bem recebido, ela passou a ser vista como uma pessoa “difícil”. Para tentar ser aceita pelo grupo, ela operou uma mudança radical: tornou-se a mais esforçada, a mais responsável, aquela que dava conta de tudo e fazia tudo certo, acreditando cegamente que o seu valor dependia dessa perfeição. O resultado foi o pior possível: nada parecia suficiente, a iniciativa sumiu, o medo de errar paralisou seus projetos e ela passou anos adiando os próprios sonhos para não incomodar ninguém.

    Olhando para essa trajetória com o distanciamento que o tempo nos dá, percebemos que existem muitas camadas nessa dinâmica e que as coisas não são tão simples quanto parecem. O desejo de pertencer e ser aceita é algo completamente normal e esperado em crianças e adolescentes. Na juventude, a falta de experiência faz com que a gente mude do oito para o oitenta com muita facilidade. Afinal, tudo na vida pode ser dito, mas isso depende fundamentalmente da forma, do momento e das circunstâncias — uma percepção refinada que uma pessoa muito jovem ainda não tem condições de identificar. Da mesma forma, a maturidade nos ensina que existem batalhas que não são nossas e coisas que, simplesmente, não valem a pena ser ditas.

    A fábrica de mulheres submissas

    Contudo, não podemos ignorar que essa transformação da menina questionadora na jovem silenciosa acontece porque o mundo ao redor estimula essa anulação. A nossa sociedade ainda recompensa as pessoas quietas e submissas, especialmente se elas forem mulheres. Quando uma criança cresce em um ambiente que não a incentiva a duvidar, a colocar limites ou a rejeitar as imposições, a tendência natural é que ela vista a armadura da hiper-responsabilidade. Ser a pessoa que resolve tudo e não reclama de nada vira uma moeda de troca para comprar um afeto que deveria ser gratuito. O preço desse contrato invisível, no entanto, é o abandono de si mesma.

    Essa busca por uma perfeição que não existe funciona como uma engrenagem que drena a nossa saúde mental e o nosso bem-estar possível. Passamos anos tentando caber em moldes que não foram feitos para o nosso tamanho, gastando uma energia imensa para manter de pé uma estrutura que só nos traz cansaço e frustração. É uma vida vivida pela metade, onde o medo de ser rejeitada acaba ditando o ritmo dos nossos passos.

    O reencontro com a própria intensidade e o nosso papel com o futuro

    A grande virada de chave, contudo, acontece quando o tempo passa e a maturidade nos devolve a identidade que havíamos deixado pelo caminho. Em algum momento da vida adulta, aquela mulher que passou anos tentando ser perfeita se reencontra com a sua essência. Ela volta a refletir, volta a questionar e recupera a sua voz, mas agora faz isso de um jeito completamente diferente. A intensidade que assustava na juventude ganha o contorno da diplomacia. A segurança substitui a arrogância, e aquela necessidade desesperada de ser aceita ou de se moldar para caber na vida do outro simplesmente deixa de existir.

    Mas essa transformação não deve servir apenas para o nosso próprio bem-estar; ela nos traz uma responsabilidade com quem vem depois. A mudança de cultura da nossa sociedade depende diretamente de nós e da forma como acolhemos os mais jovens. Quando encontrarmos em nossas vidas uma criança ou adolescente com essa mesma personalidade forte e questionadora, o nosso papel, em vez de silenciar ou tentar enquadrar essa mente em moldes antigos, deve ser o de orientar com gentileza. Se soubermos guiar essa intensidade, ajudamos esse jovem a desenvolver todo o seu potencial de vida, poupando-o de passar por tantos anos de sofrimento e anulação.

    Para que isso aconteça, no entanto, a exigência recai sobre nós mesmos. É preciso que nós, os adultos da vez, sejamos pessoas equilibradas, maduras e com empatia suficiente para entender que questionar não é uma afronta, mas um sinal de inteligência que precisa de espaço para crescer. O bem-estar verdadeiro nasce justamente dessa audácia: olhar para o espelho, aceitar a própria história e usar a nossa maturidade para abrir caminhos mais livres e saudáveis para as próximas gerações, sabendo que ser considerada uma pessoa “difícil” por quem quer o nosso silêncio é, na verdade, o maior sinal da nossa libertação.

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Pausa, respiro e o pé no chão

Tag: Necessidade de ser aceita

  • O preço de ser “perfeita” e a audácia de voltar a incomodar

    O preço de ser “perfeita” e a audácia de voltar a incomodar

    Passar os olhos pelas redes sociais às vezes nos joga diante de desabafos que funcionam como um espelho retrovisor. Há pouco tempo, li o relato de uma mulher que contava como a sua infância e juventude foram marcadas pela coragem de falar o que pensava, questionar o óbvio e defender suas opiniões. Como esse comportamento nem sempre era bem recebido, ela passou a ser vista como uma pessoa “difícil”. Para tentar ser aceita pelo grupo, ela operou uma mudança radical: tornou-se a mais esforçada, a mais responsável, aquela que dava conta de tudo e fazia tudo certo, acreditando cegamente que o seu valor dependia dessa perfeição. O resultado foi o pior possível: nada parecia suficiente, a iniciativa sumiu, o medo de errar paralisou seus projetos e ela passou anos adiando os próprios sonhos para não incomodar ninguém.

    Olhando para essa trajetória com o distanciamento que o tempo nos dá, percebemos que existem muitas camadas nessa dinâmica e que as coisas não são tão simples quanto parecem. O desejo de pertencer e ser aceita é algo completamente normal e esperado em crianças e adolescentes. Na juventude, a falta de experiência faz com que a gente mude do oito para o oitenta com muita facilidade. Afinal, tudo na vida pode ser dito, mas isso depende fundamentalmente da forma, do momento e das circunstâncias — uma percepção refinada que uma pessoa muito jovem ainda não tem condições de identificar. Da mesma forma, a maturidade nos ensina que existem batalhas que não são nossas e coisas que, simplesmente, não valem a pena ser ditas.

    A fábrica de mulheres submissas

    Contudo, não podemos ignorar que essa transformação da menina questionadora na jovem silenciosa acontece porque o mundo ao redor estimula essa anulação. A nossa sociedade ainda recompensa as pessoas quietas e submissas, especialmente se elas forem mulheres. Quando uma criança cresce em um ambiente que não a incentiva a duvidar, a colocar limites ou a rejeitar as imposições, a tendência natural é que ela vista a armadura da hiper-responsabilidade. Ser a pessoa que resolve tudo e não reclama de nada vira uma moeda de troca para comprar um afeto que deveria ser gratuito. O preço desse contrato invisível, no entanto, é o abandono de si mesma.

    Essa busca por uma perfeição que não existe funciona como uma engrenagem que drena a nossa saúde mental e o nosso bem-estar possível. Passamos anos tentando caber em moldes que não foram feitos para o nosso tamanho, gastando uma energia imensa para manter de pé uma estrutura que só nos traz cansaço e frustração. É uma vida vivida pela metade, onde o medo de ser rejeitada acaba ditando o ritmo dos nossos passos.

    O reencontro com a própria intensidade e o nosso papel com o futuro

    A grande virada de chave, contudo, acontece quando o tempo passa e a maturidade nos devolve a identidade que havíamos deixado pelo caminho. Em algum momento da vida adulta, aquela mulher que passou anos tentando ser perfeita se reencontra com a sua essência. Ela volta a refletir, volta a questionar e recupera a sua voz, mas agora faz isso de um jeito completamente diferente. A intensidade que assustava na juventude ganha o contorno da diplomacia. A segurança substitui a arrogância, e aquela necessidade desesperada de ser aceita ou de se moldar para caber na vida do outro simplesmente deixa de existir.

    Mas essa transformação não deve servir apenas para o nosso próprio bem-estar; ela nos traz uma responsabilidade com quem vem depois. A mudança de cultura da nossa sociedade depende diretamente de nós e da forma como acolhemos os mais jovens. Quando encontrarmos em nossas vidas uma criança ou adolescente com essa mesma personalidade forte e questionadora, o nosso papel, em vez de silenciar ou tentar enquadrar essa mente em moldes antigos, deve ser o de orientar com gentileza. Se soubermos guiar essa intensidade, ajudamos esse jovem a desenvolver todo o seu potencial de vida, poupando-o de passar por tantos anos de sofrimento e anulação.

    Para que isso aconteça, no entanto, a exigência recai sobre nós mesmos. É preciso que nós, os adultos da vez, sejamos pessoas equilibradas, maduras e com empatia suficiente para entender que questionar não é uma afronta, mas um sinal de inteligência que precisa de espaço para crescer. O bem-estar verdadeiro nasce justamente dessa audácia: olhar para o espelho, aceitar a própria história e usar a nossa maturidade para abrir caminhos mais livres e saudáveis para as próximas gerações, sabendo que ser considerada uma pessoa “difícil” por quem quer o nosso silêncio é, na verdade, o maior sinal da nossa libertação.