Bem Estar Possível

Pausa, respiro e o pé no chão

  • Mulheres educando meninos machistas: o papel do pai e a culpa real

    Mulheres educando meninos machistas: o papel do pai e a culpa real

    Na aula de pilates desta semana, ouvi um diálogo que me deixou profundamente desconfortável. Entre um exercício e outro, duas mães conversavam sobre o futuro amoroso dos filhos. O tom era de quem planeja uma estratégia de guerra: afirmaram, sem pestanejar, que darão um “jeito de acabar com o namoro” dos rapazes quando eles crescerem, caso a escolha das namoradas não lhes agrade. Em um primeiro olhar, podemos tentar enxergar apenas a preocupação típica de quem quer proteger a cria. Mas, ao remover a casca da boa intenção, o que sobra é de uma arrogância imensa.

    É perfeitamente natural que uma mãe enxergue o valor do próprio filho. O problema surge quando esse afeto ultrapassa a barreira do saudável e se transforma na crença cega de que o menino é superior às outras pessoas — e, de forma muito específica, superior às meninas. É aí que entramos no terreno delicado e urgente do machismo estrutural. Sem perceber, e muitas vezes achando que estão apenas “defendendo” os filhos, muitas mulheres inculcam na cabeça das crianças a certeza de que eles ocupam um lugar de privilégio.

    O reflexo do pai ausente (ou do herói do mínimo)

    No entanto, seria injusto — e incorreto — colocar todo o peso da responsabilidade apenas sobre os ombros da mãe. A educação de um menino acontece muito pelo exemplo que ele absorve dentro de casa, e é aí que entra o papel crucial da figura paterna.

    Ainda convivemos com o modelo do pai que se restringe ao papel de provedor financeiro, como se o sustento material quitasse todas as outras faturas da convivência e como se muitas mães também não trabalhassem tantas ou mais horas por dia, contribuindo com o sustento da casa. Na prática, esse pai não divide as tarefas domésticas, não participa ativamente da educação diária, não se envolve nos pequenos cuidados e nas dores dos filhos. E, quando faz o mínimo — uma única tarefa pontual —, age como se fosse um ser excepcional, o melhor marido do mundo cumprindo uma missão heróica, quando está apenas fazendo a sua obrigação básica como adulto e pai.

    O menino que cresce observando esse arranjo aprende rápido: ele vê a mãe sobrecarregada acumulando jornadas e vê o pai isento. Mais do que isso, ele valida a distorção de que a mulher serve para cuidar e o homem serve apenas para mandar dinheiro. Se a própria mãe reforça essa narrativa — elogiando o pai por lavar um prato ou aplaudindo o filho por não arrumar o próprio quarto —, o ciclo se fecha perfeitamente.

    A herança que deixamos para o futuro

    Esses meninos crescem e se tornam adultos que carregam a certeza absoluta da própria centralidade. Isso desencadeia um monte de comportamentos nocivos nas relações: desde a falta de responsabilidade afetiva até a incapacidade patológica de lidar com a independência de uma mulher ou com o término de uma relação.

    Diante do aumento exponencial dos casos de feminicídio e da violência de gênero, temos a tendência natural de culpar “a sociedade em geral”, terceirizando o problema para o sistema. Mas evitamos encarar o espelho. A violência contra a mulher começa na base, na forma como o lar é estruturado e como os meninos são criados para acreditar que o mundo gira ao redor deles.

    Amor de mãe e de pai não deve ser sinônimo de blindagem contra a realidade nem de validação de privilégios. Se queremos um mundo onde as mulheres deixem de ser alvos de controle e violência, precisamos começar por criar homens que dividam o peso da vida real de igual para igual. O bem-estar possível nos exige coragem para mexer nas feridas do cotidiano e parar de aplaudir o mínimo. O futuro dos nossos filhos — e a segurança das mulheres que vão cruzar o caminho deles — depende da nossa disposição para desconstruir o machismo dentro da nossa própria sala de estar.

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Pausa, respiro e o pé no chão

Tag: Mulheres Educando Meninos Machistas

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    Mulheres educando meninos machistas: o papel do pai e a culpa real

    Na aula de pilates desta semana, ouvi um diálogo que me deixou profundamente desconfortável. Entre um exercício e outro, duas mães conversavam sobre o futuro amoroso dos filhos. O tom era de quem planeja uma estratégia de guerra: afirmaram, sem pestanejar, que darão um “jeito de acabar com o namoro” dos rapazes quando eles crescerem, caso a escolha das namoradas não lhes agrade. Em um primeiro olhar, podemos tentar enxergar apenas a preocupação típica de quem quer proteger a cria. Mas, ao remover a casca da boa intenção, o que sobra é de uma arrogância imensa.

    É perfeitamente natural que uma mãe enxergue o valor do próprio filho. O problema surge quando esse afeto ultrapassa a barreira do saudável e se transforma na crença cega de que o menino é superior às outras pessoas — e, de forma muito específica, superior às meninas. É aí que entramos no terreno delicado e urgente do machismo estrutural. Sem perceber, e muitas vezes achando que estão apenas “defendendo” os filhos, muitas mulheres inculcam na cabeça das crianças a certeza de que eles ocupam um lugar de privilégio.

    O reflexo do pai ausente (ou do herói do mínimo)

    No entanto, seria injusto — e incorreto — colocar todo o peso da responsabilidade apenas sobre os ombros da mãe. A educação de um menino acontece muito pelo exemplo que ele absorve dentro de casa, e é aí que entra o papel crucial da figura paterna.

    Ainda convivemos com o modelo do pai que se restringe ao papel de provedor financeiro, como se o sustento material quitasse todas as outras faturas da convivência e como se muitas mães também não trabalhassem tantas ou mais horas por dia, contribuindo com o sustento da casa. Na prática, esse pai não divide as tarefas domésticas, não participa ativamente da educação diária, não se envolve nos pequenos cuidados e nas dores dos filhos. E, quando faz o mínimo — uma única tarefa pontual —, age como se fosse um ser excepcional, o melhor marido do mundo cumprindo uma missão heróica, quando está apenas fazendo a sua obrigação básica como adulto e pai.

    O menino que cresce observando esse arranjo aprende rápido: ele vê a mãe sobrecarregada acumulando jornadas e vê o pai isento. Mais do que isso, ele valida a distorção de que a mulher serve para cuidar e o homem serve apenas para mandar dinheiro. Se a própria mãe reforça essa narrativa — elogiando o pai por lavar um prato ou aplaudindo o filho por não arrumar o próprio quarto —, o ciclo se fecha perfeitamente.

    A herança que deixamos para o futuro

    Esses meninos crescem e se tornam adultos que carregam a certeza absoluta da própria centralidade. Isso desencadeia um monte de comportamentos nocivos nas relações: desde a falta de responsabilidade afetiva até a incapacidade patológica de lidar com a independência de uma mulher ou com o término de uma relação.

    Diante do aumento exponencial dos casos de feminicídio e da violência de gênero, temos a tendência natural de culpar “a sociedade em geral”, terceirizando o problema para o sistema. Mas evitamos encarar o espelho. A violência contra a mulher começa na base, na forma como o lar é estruturado e como os meninos são criados para acreditar que o mundo gira ao redor deles.

    Amor de mãe e de pai não deve ser sinônimo de blindagem contra a realidade nem de validação de privilégios. Se queremos um mundo onde as mulheres deixem de ser alvos de controle e violência, precisamos começar por criar homens que dividam o peso da vida real de igual para igual. O bem-estar possível nos exige coragem para mexer nas feridas do cotidiano e parar de aplaudir o mínimo. O futuro dos nossos filhos — e a segurança das mulheres que vão cruzar o caminho deles — depende da nossa disposição para desconstruir o machismo dentro da nossa própria sala de estar.