Em um mundo que corre contra o relógio, viajar virou, para muitos, uma extensão da pressa cotidiana. Vemos pessoas obcecadas em conhecer o maior número de lugares possível em poucos dias, acumulando fotos em pontos turísticos, mas sem absorver absolutamente nada do caminho. Recentemente, me peguei lembrando de uma viagem a Minas Gerais, um estado que, por si só, parece ter um tempo próprio. Entrar naquelas igrejas históricas de Ouro Preto é um convite ao desacelerar. Não sou uma pessoa religiosa, então não busco ali nenhuma presença sobrenatural. Mas a paz daquele ambiente é inegável, potencializada por uma regra maravilhosa: a proibição de celulares e câmeras fotográficas. Sem telas para nos distrair, somos forçados a apenas sentar e observar as pinturas, as esculturas e cada detalhe entalhado na madeira. É ali, no silêncio, que começamos a pensar no talento extraordinário de quem fez aquilo e, no lado oposto, nas contradições profundas da história humana.
Durante essa viagem, visitamos um museu que guardava quatro esculturas em forma de animal, esculpidas por Aleijadinho, que serviam de suporte para os caixões da época. O guia nos contou uma história fascinante: um homem de posses havia viajado para a África, conhecera os leões e, ao retornar ao Brasil, descreveu a imponência do animal para o artista criar as peças. Naquele tempo, sem fotografias, o escultor precisou confiar na narrativa alheia. Aleijadinho esculpiu com precisão o corpo e a juba imponente, mas ao dar vida à face do felino, guiou-se pela descrição de um nariz largo e focinho curto. Sem nunca ter visto um leão, a única referência de fisionomia que ele possuía que se aproximava daquela descrição era o rosto dos escravizados trazidos da África. O resultado são esculturas intrigantes, que parecem meio animais e meio seres humanos.

As lentes embaçadas da nossa experiência
Essa história nos joga diante de um espelho incômodo sobre como a nossa mente opera até hoje. Quantas vezes, baseados no limite do nosso conhecimento e das nossas poucas experiências, imaginamos coisas que não são reais? Diante do desconhecido, nosso cérebro não tolera o vazio; ele busca na gaveta da memória qualquer retalho que ajude a explicar o mundo. O problema é que esse mecanismo, muitas vezes inconsciente, torna-se perigoso quando usamos essas criações da nossa imaginação para respaldar o que queremos acreditar, validando os nossos próprios preconceitos e aquilo que nos convém. Criamos verdades absolutas sobre os outros e sobre a sociedade baseados apenas nos limites da nossa mente.
Mas o que mais me marcou naquele dia no museu não foi apenas a genialidade adaptativa de Aleijadinho, e sim a reação das pessoas ao redor. Vi visitantes genuinamente indignados com o fato de o artista ter usado o rosto de pessoas escravizadas como referência para esculpir um animal. No entanto, essas mesmas pessoas caminhavam pelas igrejas de ouro sem demonstrar qualquer indignação pelo fato histórico de que aqueles homens e mulheres foram escravizados, desumanizados e explorados até a exaustão para construir aquela opulência. Choca-se com a metáfora da arte, mas tolera-se a brutalidade da realidade.
O resgate da autocrítica
Essa indignação seletiva é um sintoma muito atual. É a herança de uma sociedade que prefere julgar a superfície das coisas a ter que encarar as suas próprias sombras e contradições. O bem-estar possível exige de nós a coragem de olhar para além do óbvio, de questionar os limites da nossa própria visão e, acima de tudo, de alinhar a nossa empatia com a realidade, e não com conveniências do momento.
Olhar para o leão de Aleijadinho é um lembrete poético e brutal de que a nossa percepção é limitada, mas que o nosso compromisso com a verdade e com a humanidade do outro não pode ser. Precisamos aprender a sentar nos bancos calmos da vida, guardar as distrações e ter a honestidade de enxergar o mundo como ele realmente é, com todas as suas complexidades, dores e belezas, sem os filtros confortáveis das nossas próprias ilusões.



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