Bem Estar Possível

Pausa, respiro e o pé no chão

  • O valor da nossa singularidade na estética

    O valor da nossa singularidade na estética

    Dia desses, peguei-me lembrando de uma conversa que tive com uma antiga colega de trabalho. Era uma moça jovem, de pele clara, cujas bochechas eram salpicadas por pequenas sardas. Ela era linda exatamente daquele jeito. No entanto, durante o café, ela me confidenciou que estava guardando dinheiro para realizar um procedimento dermatológico para remover aquelas marcas do rosto. Curiosa, perguntei o motivo de querer apagar algo tão próprio. A resposta dela me deu um nó no peito: ela queria ter a “pele limpa”, uniforme, exatamente como ficava quando usava camadas de maquiagem.

    Essa conversa escancara uma das armadilhas mais cruéis da nossa era digital. Passamos horas do dia navegando por feeds de redes sociais, consumindo imagens de rostos perfeitamente simétricos, sem poros, sem linhas de expressão e sem texturas. Esquecemos que, por trás daquelas telas, operam filtros digitais e inteligências artificiais capazes de transformar uma pessoa a ponto de torná-la irreconhecível se cruzarmos com ela na rua. O problema é que a nossa mente começa a normalizar o artificial e a rejeitar o natural. Lembrei a ela que existia uma modelo internacional famosíssima que, sendo tão linda quanto as outras, transformou justamente as suas sardas marcantes em seu maior diferencial e passaporte para o sucesso. Mas a ditadura do padrão insiste em nos dizer que a beleza mora na homogeneidade.

    O “narizinho de alemão” e a mudança no espelho

    Olhar para a nossa própria história nos ajuda a entender como esses padrões nos moldam desde cedo. Eu mesma, durante a juventude, passei anos alimentando o desejo secreto de fazer uma cirurgia estética no nariz. Eu o achava grande demais e me incomodava uma pequena curva que ele exibia na parte de cima. Essa insatisfação me acompanhou até os anos de universidade, quando um professor, em uma conversa despretensiosa, comentou que apenas cerca de 3% da população mundial possuía aquele formato anatômico específico. Com um sorriso, ele o chamou carinhosamente de “narizinho de alemão”, uma herança nítida da minha ancestralidade.

    A partir daquele momento, algo virou dentro de mim. O que eu lia como um “defeito” passou a ser visto como uma marca de raridade e identidade. Anos mais tarde, quando precisei passar por uma cirurgia funcional para corrigir um desvio de septo, a médica perguntou se eu gostaria de aproveitar a anestesia para mudar algo esteticamente. Com o peito cheio de orgulho e a identidade pacificada, respondi que não. Eu já havia feito as pazes com o meu reflexo.

    O olhar de amor que reservamos aos outros

    É claro que precisamos tratar esse assunto com o devido respeito e sem julgamentos rasos. Existem questões estéticas sérias que causam sofrimento profundo, traumas reais e que afetam gravemente a autoestima e a saúde mental de muitas pessoas. Nestes casos, a medicina e a tecnologia são aliadas valiosas para devolver a dignidade e o bem-estar. O problema começa quando a busca por procedimentos vira uma corrida sem fim para corrigir detalhes insignificantes, movida por uma insatisfação crônica que nenhuma agulha ou bisturi será capaz de preencher.

    O bem-estar possível nos convida a fazer uma pausa diante do espelho e praticar um exercício simples: o de nos olharmos com o mesmo amor, generosidade e tolerância que reservamos para as pessoas que amamos. Quando olhamos para uma amiga, não reparamos na linha de expressão ao redor dos olhos ou na pequena assimetria do seu sorriso; nós enxergamos a sua luz, o seu calor e a sua beleza integral. Por que, então, somos tão carrascos com o nosso próprio rosto? Que a gente possa resgatar a coragem de carregar na pele as nossas marcas, a nossa ancestralidade e a nossa história. Afinal, a verdadeira beleza não mora na perfeição fria de um filtro de celular, mas na coragem de ser, orgulhosamente, de verdade.

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Pausa, respiro e o pé no chão

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  • O valor da nossa singularidade na estética

    O valor da nossa singularidade na estética

    Dia desses, peguei-me lembrando de uma conversa que tive com uma antiga colega de trabalho. Era uma moça jovem, de pele clara, cujas bochechas eram salpicadas por pequenas sardas. Ela era linda exatamente daquele jeito. No entanto, durante o café, ela me confidenciou que estava guardando dinheiro para realizar um procedimento dermatológico para remover aquelas marcas do rosto. Curiosa, perguntei o motivo de querer apagar algo tão próprio. A resposta dela me deu um nó no peito: ela queria ter a “pele limpa”, uniforme, exatamente como ficava quando usava camadas de maquiagem.

    Essa conversa escancara uma das armadilhas mais cruéis da nossa era digital. Passamos horas do dia navegando por feeds de redes sociais, consumindo imagens de rostos perfeitamente simétricos, sem poros, sem linhas de expressão e sem texturas. Esquecemos que, por trás daquelas telas, operam filtros digitais e inteligências artificiais capazes de transformar uma pessoa a ponto de torná-la irreconhecível se cruzarmos com ela na rua. O problema é que a nossa mente começa a normalizar o artificial e a rejeitar o natural. Lembrei a ela que existia uma modelo internacional famosíssima que, sendo tão linda quanto as outras, transformou justamente as suas sardas marcantes em seu maior diferencial e passaporte para o sucesso. Mas a ditadura do padrão insiste em nos dizer que a beleza mora na homogeneidade.

    O “narizinho de alemão” e a mudança no espelho

    Olhar para a nossa própria história nos ajuda a entender como esses padrões nos moldam desde cedo. Eu mesma, durante a juventude, passei anos alimentando o desejo secreto de fazer uma cirurgia estética no nariz. Eu o achava grande demais e me incomodava uma pequena curva que ele exibia na parte de cima. Essa insatisfação me acompanhou até os anos de universidade, quando um professor, em uma conversa despretensiosa, comentou que apenas cerca de 3% da população mundial possuía aquele formato anatômico específico. Com um sorriso, ele o chamou carinhosamente de “narizinho de alemão”, uma herança nítida da minha ancestralidade.

    A partir daquele momento, algo virou dentro de mim. O que eu lia como um “defeito” passou a ser visto como uma marca de raridade e identidade. Anos mais tarde, quando precisei passar por uma cirurgia funcional para corrigir um desvio de septo, a médica perguntou se eu gostaria de aproveitar a anestesia para mudar algo esteticamente. Com o peito cheio de orgulho e a identidade pacificada, respondi que não. Eu já havia feito as pazes com o meu reflexo.

    O olhar de amor que reservamos aos outros

    É claro que precisamos tratar esse assunto com o devido respeito e sem julgamentos rasos. Existem questões estéticas sérias que causam sofrimento profundo, traumas reais e que afetam gravemente a autoestima e a saúde mental de muitas pessoas. Nestes casos, a medicina e a tecnologia são aliadas valiosas para devolver a dignidade e o bem-estar. O problema começa quando a busca por procedimentos vira uma corrida sem fim para corrigir detalhes insignificantes, movida por uma insatisfação crônica que nenhuma agulha ou bisturi será capaz de preencher.

    O bem-estar possível nos convida a fazer uma pausa diante do espelho e praticar um exercício simples: o de nos olharmos com o mesmo amor, generosidade e tolerância que reservamos para as pessoas que amamos. Quando olhamos para uma amiga, não reparamos na linha de expressão ao redor dos olhos ou na pequena assimetria do seu sorriso; nós enxergamos a sua luz, o seu calor e a sua beleza integral. Por que, então, somos tão carrascos com o nosso próprio rosto? Que a gente possa resgatar a coragem de carregar na pele as nossas marcas, a nossa ancestralidade e a nossa história. Afinal, a verdadeira beleza não mora na perfeição fria de um filtro de celular, mas na coragem de ser, orgulhosamente, de verdade.