Basta passar alguns minutos navegando pelas redes sociais, participando de grupos de aplicativos de mensagens ou observando conversas presenciais para notar um fenômeno curioso e incômodo. As pessoas passaram a se comportar como se fossem personalidades públicas cuja opinião sobre absolutamente tudo é vital e urgentemente necessária. Criou-se a ilusão de que ter um microfone na mão nos obriga a emitir vereditos sobre geopolítica, economia, arte e conduta humana, mesmo quando não se tem a menor ideia do que se está falando ou apenas repetindo algo que alguém disse. Vivemos o império do achismo, onde o ruído da ignorância sobrepõe-se ao silêncio do estudo e da observação.
É cada vez mais raro — e por isso mesmo tão instigante — cruzar o caminho de pessoas que possuem a capacidade real de discorrer sobre os mais diversos assuntos com bagagem, vivência e leitura. Gente que consegue identificar referências cruzadas entre a música, o cinema, as artes plásticas e a história. Infelizmente, ter um diploma universitário há muito deixou de ser garantia dessa profundidade. A epidemia de superficialidade atingiu as academias: muitos profissionais mal e porcamente se debruçam sobre as leituras obrigatórias da sua própria formação, que dirá abrir um romance, um estudo ou um clássico da literatura. O resultado disso são pessoas incapazes de interpretar o que acontece ao seu redor e no mundo, cegas para a forma como os acontecimentos se interligam.
O alimento da mente e a ilusão das respostas prontas
Não é por acaso ou mero detalhe comercial que as listas dos livros mais vendidos no Brasil sejam dominadas por obras de autoajuda e literatura religiosa. Em uma sociedade cada vez mais cansada de pensar, busca-se a ilusão das respostas prontas e dos manuais fáceis para a existência. O problema dessa anestesia cultural é que ela serve a propósitos muito claros: quanto mais ignorante e desconectado de repertório for um povo, mais fácil ele se torna de ser enganado, manipulado e conduzido. E o mais triste de tudo isso é ver que essa cegueira acontece na era da história em que a informação se tornou mais barata, rápida e acessível. Nunca foi tão fácil aprender; basta ter interesse.
Ao refletir sobre essa seca cultural, lembrei-me de um comentário que uma amiga da minha mãe fez certa vez ao visitar a nossa casa. Impressionada, ela observou que lá havia livros espalhados por todos os cômodos — algo que não acontecia na casa dela. E ela tinha razão. A minha infância e juventude foram moldadas por esse cenário. A grande maioria dos meus presentes de Natal, Páscoa e aniversário eram livros. Não importava a data, lá estava uma nova lombada para ser aberta: de clássicos da literatura universal a contos, crônicas e romances contemporâneos.
A porta aberta pela leitura
Ter livros pela casa faz muito mais do que preencher prateleiras; cria um espírito de busca incessante. Uma história bem contada aborda um contexto histórico, cita uma obra de arte ou menciona um fato que nos instiga a pesquisar e aprender mais. Quem lê desenvolve a capacidade de se espantar, de duvidar e de saborear aqueles livros com finais surpreendentes, cujos desfechos permanecem ecoando na nossa mente por dias a fio, provocando novas perguntas sobre a vida.
O bem-estar possível não é um estado de alienação alegre e fútil. Ele exige lucidez, maturidade e a coragem de admitir quando não sabemos sobre um assunto. Em um mundo onde todos gritam suas certezas rasas, o verdadeiro ato de resistência é recolher o ego, abrir um bom livro e cultivar a bagagem necessária para entender o mundo com a profundidade que ele exige. Afinal, a liberdade de pensamento e a imunidade contra as manipulações do mundo só pertencem a quem se dedica a abrir as portas do conhecimento.



Deixe um comentário