Hoje, apesar do frio do final de agosto, decidi arriscar e colocar as mãos na terra. Aproveitei o sol generoso e a ausência daquele vento norte incômodo para trabalhar um pouco no jardim. A estação ainda exige agasalhos, mas a natureza tem seu próprio relógio, indomável e apressado: as flores da primavera já começaram a desabrochar, deixando o ar perfumado com o aroma inconfundível das flores brancas da laranjeira e do jasmim. Para coroar a manhã, todas as vezes que o sol desponta, um sabiá vem cantar firme no pé de cerejeira logo em frente à janela do meu quarto. É um ritual antigo e infalível. Quando o ouço, sei com certeza matemática que o rigor do inverno está chegando ao fim. É, sem dúvida, uma das épocas do ano que mais guardo no coração.
Contudo, é curioso observar como nem todas as pessoas compartilham dessa alegria. É cada vez mais comum esbarrar na contradição daqueles que fazem questão de comprar imóveis em áreas arborizadas — não pelo amor à terra, mas pela valorização do investimento ou pelo apelo estético da paisagem. Querem o verde na foto do anúncio, mas rejeitam a convivência com a vida que habita nele. São pessoas que não suportam andar descalças na grama, que mantêm as janelas trancadas à noite para impedir que o perfume forte das flores de jasmim entre no quarto e que se irritam com o barulho legítimo da vida: o canto dos pássaros ao amanhecer, o coaxar dos sapos na umidade e o som agudo das cigarras.
O espetáculo secreto das noites quentes
O que essa turma perde é justamente o melhor da festa. Eles nunca saberão o encanto dos vaga-lumes rasgando o escuro do verão, parecendo pequenas estrelas perdidas ou fadinhas brilhando no quintal. Perdem o privilégio de, quando as noites começam a aquecer, poder sentar do lado de fora da casa depois do banho, com uma xícara de chá ou um livro aberto no colo, simplesmente acompanhando a sinfonia e o movimento da vida noturna da natureza. É o momento em que a cabeça esvazia, os ombros relaxam e o mundo desacelera.
Queremos o conforto do campo, mas exigimos que ele venha sem bichos, sem folhas secas, sem poeira e sem barulho. Transformamos o pátio em um cenário de plástico, esquecendo que o verdadeiro bem-estar reside na nossa capacidade de nos integrarmos aos ciclos do mundo natural, e não de tentarmos domesticá-lo à força.
O privilégio de pertencer ao ciclo
Apreciar o final de agosto e a chegada da primavera não exige grandes viagens ou rituais sofisticados. Exige apenas a disposição de abrir a janela, de sujar os pés de terra e de aceitar que o canto do sabiá e o perfume adocicado da laranjeira fazem parte de um ecossistema vivo do qual nós também fazemos parte.
O bem-estar possível nos convida a resgatar essa intimidade com o quintal. Que a gente não tenha medo de escutar os barulhos da noite nem vergonha de gostar do cheiro da terra. Que possamos ser vizinhos gentis da natureza, aproveitando o sol, respeitando a chuva e acolhendo cada fada brilhante que decide iluminar o nosso escuro. Afinal, a vida lá fora é vasta, bonita e está esperando apenas que a gente decida, finalmente, abrir a porta.



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