Bem Estar Possível

Pausa, respiro e o pé no chão

  • A espetacularização da vida: por que as festas perderam a alma?

    A espetacularização da vida: por que as festas perderam a alma?

    Há uma linha tênue, mas muito nítida, que separa o desejo legítimo de celebrar uma conquista da necessidade obsessiva de encenar um espetáculo para a aprovação alheia. Se observarmos os eventos sociais de hoje — de casamentos a formaturas, passando por aniversários e os onipresentes mesversários e chás revelação—, percebemos que o afeto e a espontaneidade parecem ter sido rebaixados ao papel de meros figurantes. Tudo precisa ser monumental, luxuoso e, acima de tudo, instagramável. A vida íntima foi transferida para um palco iluminado, onde o principal objetivo não é mais compartilhar a alegria com quem amamos, mas sim garantir que a plateia assista a um show inesquecível.

    Tomemos os casamentos como exemplo. Não importa se o casal jamais frequentou uma igreja ou se a conexão real entre os dois foi colocada em segundo plano; a cerimônia precisa ser um evento de gala. No início, eram apenas os noivos que arriscavam coreografias elaboradas na pista de dança; hoje, pais e padrinhos são intimados a ensaiar passos complexos para vídeos que engajam nas redes sociais. Até as declarações de amor e os votos no altar parecem ter suas palavras escolhidas a dedo por profissionais de roteiro — não para externar os sentimentos mais profundos e genuínos, mas para causar impacto estético e arrancar lágrimas ensaiadas. Na plateia, amigas que planejam os próprios casamentos assistem ao espetáculo de caneta na mão, anotando ideias não por inspiração, mas para garantir que o seu próprio evento seja ainda maior, mais caro e mais impactante que os anteriores. A celebração virou uma competição de egos.

    Da beca no jardim de infância ao abuso dos convidados

    Essa espetacularização começa assustadoramente cedo. Nos jardins de infância, assistimos à cópia fiel e quase caricata dos cerimoniais das universidades: bebês e crianças pequenas vestindo becas pesadas, capelos e carregando canudos de formatura. Força-se o amadurecimento visual de quem mal aprendeu a ler o mundo, apenas para alimentar o arquivo de fotos dos adultos. Em contrapartida, quando chegamos às colações de grau das universidades de fato, o cenário se inverte de forma vergonhosa. Sob uma roupagem de luxo, o que se ouve são músicas de péssimo gosto, gritos grosseiros e atitudes mal-educadas de familiares e amigos, provando que a sofisticação cenográfica não caminha de mãos dadas com a elegância de comportamento.

    O abuso se estende também aos berços. O nascimento de um bebê agora inaugura uma maratona financeira de cenários montados e bolos esculpidos para cada mês de vida — os chamados mesversários —, culminando em festas infantis cujas listas de convidados e orçamentos superam com folga os grandes casamentos do passado. E para sustentar essa engrenagem de aparências, criaram-se exigências bizarras para quem recebe o convite. O convidado mudou de papel: de testemunha querida, passou a ser o financiador do show. Cobram-se presentes de valores astronômicos, cotas de lua de mel em dinheiro, contribuições obrigatórias para o aluguel do espaço ou para as bebidas consumidas.

    O resgate da simplicidade e do afeto

    Viver nessa eterna obrigação do show é exaustivo e esvazia o que a vida tem de mais sagrado. O bem-estar possível, no contexto das nossas relações, exige um retorno urgente à simplicidade. Celebrar de verdade não tem nada a ver com o número de velas de faísca que estouram na hora do bolo ou com a iluminação cênica da pista. Tem a ver com a preocupação genuína de deixar as pessoas que amamos à vontade, acolhidas e confortáveis.

    Precisamos recuperar a coragem de fazer festas onde a comida seja farta em sabor e não apenas em estética, onde as conversas aconteçam sem o som ensurdecedor de caixas de som e onde os votos sejam ditos baixinho, olho no olho, com as palavras trêmulas e imperfeitas que só o amor de verdade sabe ditar. Que a gente possa descer do palco das aparências e voltar a sentar na mesa da autenticidade. Afinal, as memórias que realmente aquecem a alma ao longo dos anos nascem do calor dos sentimentos verdadeiros, e esses, felizmente, nunca precisaram de fogos de artifício para brilhar.

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Pausa, respiro e o pé no chão

Tag: Casamentos e formaturas

  • A espetacularização da vida: por que as festas perderam a alma?

    A espetacularização da vida: por que as festas perderam a alma?

    Há uma linha tênue, mas muito nítida, que separa o desejo legítimo de celebrar uma conquista da necessidade obsessiva de encenar um espetáculo para a aprovação alheia. Se observarmos os eventos sociais de hoje — de casamentos a formaturas, passando por aniversários e os onipresentes mesversários e chás revelação—, percebemos que o afeto e a espontaneidade parecem ter sido rebaixados ao papel de meros figurantes. Tudo precisa ser monumental, luxuoso e, acima de tudo, instagramável. A vida íntima foi transferida para um palco iluminado, onde o principal objetivo não é mais compartilhar a alegria com quem amamos, mas sim garantir que a plateia assista a um show inesquecível.

    Tomemos os casamentos como exemplo. Não importa se o casal jamais frequentou uma igreja ou se a conexão real entre os dois foi colocada em segundo plano; a cerimônia precisa ser um evento de gala. No início, eram apenas os noivos que arriscavam coreografias elaboradas na pista de dança; hoje, pais e padrinhos são intimados a ensaiar passos complexos para vídeos que engajam nas redes sociais. Até as declarações de amor e os votos no altar parecem ter suas palavras escolhidas a dedo por profissionais de roteiro — não para externar os sentimentos mais profundos e genuínos, mas para causar impacto estético e arrancar lágrimas ensaiadas. Na plateia, amigas que planejam os próprios casamentos assistem ao espetáculo de caneta na mão, anotando ideias não por inspiração, mas para garantir que o seu próprio evento seja ainda maior, mais caro e mais impactante que os anteriores. A celebração virou uma competição de egos.

    Da beca no jardim de infância ao abuso dos convidados

    Essa espetacularização começa assustadoramente cedo. Nos jardins de infância, assistimos à cópia fiel e quase caricata dos cerimoniais das universidades: bebês e crianças pequenas vestindo becas pesadas, capelos e carregando canudos de formatura. Força-se o amadurecimento visual de quem mal aprendeu a ler o mundo, apenas para alimentar o arquivo de fotos dos adultos. Em contrapartida, quando chegamos às colações de grau das universidades de fato, o cenário se inverte de forma vergonhosa. Sob uma roupagem de luxo, o que se ouve são músicas de péssimo gosto, gritos grosseiros e atitudes mal-educadas de familiares e amigos, provando que a sofisticação cenográfica não caminha de mãos dadas com a elegância de comportamento.

    O abuso se estende também aos berços. O nascimento de um bebê agora inaugura uma maratona financeira de cenários montados e bolos esculpidos para cada mês de vida — os chamados mesversários —, culminando em festas infantis cujas listas de convidados e orçamentos superam com folga os grandes casamentos do passado. E para sustentar essa engrenagem de aparências, criaram-se exigências bizarras para quem recebe o convite. O convidado mudou de papel: de testemunha querida, passou a ser o financiador do show. Cobram-se presentes de valores astronômicos, cotas de lua de mel em dinheiro, contribuições obrigatórias para o aluguel do espaço ou para as bebidas consumidas.

    O resgate da simplicidade e do afeto

    Viver nessa eterna obrigação do show é exaustivo e esvazia o que a vida tem de mais sagrado. O bem-estar possível, no contexto das nossas relações, exige um retorno urgente à simplicidade. Celebrar de verdade não tem nada a ver com o número de velas de faísca que estouram na hora do bolo ou com a iluminação cênica da pista. Tem a ver com a preocupação genuína de deixar as pessoas que amamos à vontade, acolhidas e confortáveis.

    Precisamos recuperar a coragem de fazer festas onde a comida seja farta em sabor e não apenas em estética, onde as conversas aconteçam sem o som ensurdecedor de caixas de som e onde os votos sejam ditos baixinho, olho no olho, com as palavras trêmulas e imperfeitas que só o amor de verdade sabe ditar. Que a gente possa descer do palco das aparências e voltar a sentar na mesa da autenticidade. Afinal, as memórias que realmente aquecem a alma ao longo dos anos nascem do calor dos sentimentos verdadeiros, e esses, felizmente, nunca precisaram de fogos de artifício para brilhar.