Bem Estar Possível

Pausa, respiro e o pé no chão

  • Segunda chance

    Segunda chance

    Esta semana, comecei a acompanhar uma série na televisão que me capturou logo nos primeiros episódios. Chama-se Amor para Recomeçar, uma produção egípcia de doze episódios que narra a história de Ola, uma mulher formada em farmácia que, às vésperas de completar 40 anos, vê seu casamento com um psiquiatra desmoronar. De repente, ela se depara com o divórcio e com a dura tarefa de recomeçar a vida sem saber mais quem ela é de verdade. Embora a história se passe do outro lado do mundo, em uma cultura com suas próprias regras, a jornada da protagonista é de uma universalidade assustadora. É a história de quase todas nós.

    Há uma cena emblemática em que Ola finalmente toma coragem para dizer à ex-sogra tudo o que guardou por anos. Ela relembra que, quando se casou, disseram-lhe que mulher casada não deveria trabalhar, e ela abandonou a carreira. Depois, disseram que era hora de ter filhos, e ela teve a primeira menina. Mas não bastava; a cobrança social exigia um filho homem, e ela o teve. Mais tarde, disseram que ela estava gorda, e ela emagreceu. Ola passou a juventude inteira se moldando, se adaptando e se desidratando para caber nas expectativas alheias, apenas para descobrir, no final, que nunca seria o suficiente.

    A ironia do controle e o renascimento

    O processo de divórcio traz à tona as camadas mais cruas da hipocrisia social. Ola é inicialmente rejeitada pelas outras mães da escola dos filhos, que a enxergam como uma ameaça ou um “mau exemplo” pelo simples fato de ser divorciada. Enquanto isso, o ex-marido reconstrói a vida rapidamente ao lado de uma mulher apenas um pouco mais velha que a própria filha do casal. É aqui que reside uma das maiores ironias da psicologia humana: o homem frequentemente procura em uma parceira mais jovem a leveza, a espontaneidade e o frescor que ele passou anos sufocando e podando na própria esposa. E a parte mais complexa desse processo é ver a dificuldade que esse mesmo homem tem de lidar com a transformação e o desabrochar da ex-mulher quando ela finalmente se liberta das suas amarras.

    Para não se afogar na dor da rejeição e da desqualificação do ex-parceiro, Ola decide resgatar o que tinha de mais autêntico: o hábito de produzir artesanalmente cosméticos naturais, que antes fazia apenas para uso próprio e para presentear as amigas. Com o apoio da sua melhor amiga — de quem havia se afastado porque o marido não a considerava uma companhia “adequada” —, ela transforma esse saber em um negócio próprio. O nome que escolhe para a marca não poderia ser mais perfeito: Segunda Chance.

    A lista do que realmente importa

    No meio da caos de abrir um negócio, lidar com as dores dos filhos e enfrentar encontros desastrosos, a protagonista faz algo simples, mas profundamente curador: uma lista de coisas que sempre quis fazer, mas nunca se permitiu. Coisas como andar de bicicleta, ver o nascer do sol no deserto ou fazer uma tatuagem. São pequenos rituais de retorno para si mesma.

    O bem-estar possível nos ensina que a nossa “segunda chance” não precisa esperar por um divórcio ou por uma crise de meia-idade. Ela começa no exato momento em que decidimos que nenhuma relação, nenhum papel social e nenhuma cobrança externa vale o preço da nossa própria anulação. Como a própria personagem define muito bem em uma entrevista na série: ninguém deve se apagar pelo outro, não importa quem seja. Que possamos olhar para o espelho hoje e, em vez de procurarmos os defeitos que o mundo aponta, possamos enxergar o rascunho de uma história linda que ainda tem muito tempo para ser reescrita, no nosso ritmo, com as nossas próprias regras e com toda a nossa originalidade.

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Pausa, respiro e o pé no chão

Tag: Autodescoberta

  • Segunda chance

    Segunda chance

    Esta semana, comecei a acompanhar uma série na televisão que me capturou logo nos primeiros episódios. Chama-se Amor para Recomeçar, uma produção egípcia de doze episódios que narra a história de Ola, uma mulher formada em farmácia que, às vésperas de completar 40 anos, vê seu casamento com um psiquiatra desmoronar. De repente, ela se depara com o divórcio e com a dura tarefa de recomeçar a vida sem saber mais quem ela é de verdade. Embora a história se passe do outro lado do mundo, em uma cultura com suas próprias regras, a jornada da protagonista é de uma universalidade assustadora. É a história de quase todas nós.

    Há uma cena emblemática em que Ola finalmente toma coragem para dizer à ex-sogra tudo o que guardou por anos. Ela relembra que, quando se casou, disseram-lhe que mulher casada não deveria trabalhar, e ela abandonou a carreira. Depois, disseram que era hora de ter filhos, e ela teve a primeira menina. Mas não bastava; a cobrança social exigia um filho homem, e ela o teve. Mais tarde, disseram que ela estava gorda, e ela emagreceu. Ola passou a juventude inteira se moldando, se adaptando e se desidratando para caber nas expectativas alheias, apenas para descobrir, no final, que nunca seria o suficiente.

    A ironia do controle e o renascimento

    O processo de divórcio traz à tona as camadas mais cruas da hipocrisia social. Ola é inicialmente rejeitada pelas outras mães da escola dos filhos, que a enxergam como uma ameaça ou um “mau exemplo” pelo simples fato de ser divorciada. Enquanto isso, o ex-marido reconstrói a vida rapidamente ao lado de uma mulher apenas um pouco mais velha que a própria filha do casal. É aqui que reside uma das maiores ironias da psicologia humana: o homem frequentemente procura em uma parceira mais jovem a leveza, a espontaneidade e o frescor que ele passou anos sufocando e podando na própria esposa. E a parte mais complexa desse processo é ver a dificuldade que esse mesmo homem tem de lidar com a transformação e o desabrochar da ex-mulher quando ela finalmente se liberta das suas amarras.

    Para não se afogar na dor da rejeição e da desqualificação do ex-parceiro, Ola decide resgatar o que tinha de mais autêntico: o hábito de produzir artesanalmente cosméticos naturais, que antes fazia apenas para uso próprio e para presentear as amigas. Com o apoio da sua melhor amiga — de quem havia se afastado porque o marido não a considerava uma companhia “adequada” —, ela transforma esse saber em um negócio próprio. O nome que escolhe para a marca não poderia ser mais perfeito: Segunda Chance.

    A lista do que realmente importa

    No meio da caos de abrir um negócio, lidar com as dores dos filhos e enfrentar encontros desastrosos, a protagonista faz algo simples, mas profundamente curador: uma lista de coisas que sempre quis fazer, mas nunca se permitiu. Coisas como andar de bicicleta, ver o nascer do sol no deserto ou fazer uma tatuagem. São pequenos rituais de retorno para si mesma.

    O bem-estar possível nos ensina que a nossa “segunda chance” não precisa esperar por um divórcio ou por uma crise de meia-idade. Ela começa no exato momento em que decidimos que nenhuma relação, nenhum papel social e nenhuma cobrança externa vale o preço da nossa própria anulação. Como a própria personagem define muito bem em uma entrevista na série: ninguém deve se apagar pelo outro, não importa quem seja. Que possamos olhar para o espelho hoje e, em vez de procurarmos os defeitos que o mundo aponta, possamos enxergar o rascunho de uma história linda que ainda tem muito tempo para ser reescrita, no nosso ritmo, com as nossas próprias regras e com toda a nossa originalidade.