Bem Estar Possível

Pausa, respiro e o pé no chão

  • Falta de acolhimento nas festas infantis: o egoísmo à mesa

    Falta de acolhimento nas festas infantis: o egoísmo à mesa

    Recentemente, cruzou o meu feed um vídeo daqueles que nos fazem pausar o movimento dos dedos e refletir com uma mistura de tristeza e espanto. Na gravação, intitulada “Mães, concordam?”, uma mulher relatava, indignada, os bastidores da organização do aniversário do seu filho. Ela contava que a mãe de um colega convidado havia ligado para avisar que a família era vegana e perguntar, educadamente, quais seriam as opções para o menino comer no evento. A resposta da anfitriã foi curta: haveria salada, churrasco e alguns legumes grelhados, mas os doces e o bolo levariam leite. Diante da insistência da outra mãe, que questionou se não haveria mais nada para a criança, a dona da festa disparou, cheia de orgulho e arrogância: se o menino tinha uma alimentação “seletiva”, que trouxesse uma marmita de casa, pois ela não tinha obrigação de fornecer comida especial.

    O que mais me horrorizou não foi apenas a postura da mãe do vídeo, mas a avalanche de comentários que se seguiu. A imensa maioria das pessoas aplaudia a atitude, fazia chacota do termo “vegano” e rotulava o garoto convidado como um “alecrim dourado” cheio de mimos. Outras mães de crianças com severas restrições e intolerâncias alimentares comentavam, já resignadas, que estavam acostumadas a carregar marmitas porque o mundo não tem opções. Ler aquilo me fez perceber o quanto a nossa sociedade está adoecendo na sua capacidade mais básica e bonita: a de acolher o outro.

    A etiqueta do egoísmo

    Existe uma linha invisível que conecta esse episódio a um comportamento que já discutimos aqui no blog: o hábito de presentear os outros pensando apenas no que nós mesmos gostamos. Essa mesma lógica egocêntrica opera na hora de receber. Transformou-se o ato de celebrar e convidar em um exercício de vaidade. A mentalidade da “marmita” inverte totalmente o papel de um anfitrião. A principal preocupação de quem abre as portas da sua casa — ou aluga um salão para comemorar — deveria ser fazer com que cada convidado se sinta bem-vindo, seguro e querido. Oferecer um prato vazio a alguém e sugerir que ele traga a própria comida é o oposto do afeto; é um aviso de exclusão.

    É claro que lidar com restrições alimentares severas, alergias e contaminações cruzadas exige cuidado e dá trabalho. Ninguém exige que uma mãe de aniversariante se transforme em uma chef de cozinha especializada em todas as vertentes da culinária. Mas a questão aqui não é a complexidade do cardápio; é a total ausência de humanidade no trato. Estamos falando de uma festa infantil, um ambiente onde a comida não serve apenas para nutrir o corpo, mas para gerar conexão. Ver todos os amigos da escola correndo, rindo e dividindo o bolo enquanto uma única criança é deixada de fora, confinada à sua própria marmita protetora, é de uma crueza pedagógica assustadora.

    A oportunidade perdida de educar

    Para uma mãe ou um pai, a organização de uma festa é uma oportunidade de ouro para ensinar os filhos sobre respeito e alteridade (reconhecimento da diferença). É a chance de mostrar, na prática, que o mundo é diverso, que as pessoas têm necessidades e escolhas diferentes e que a nossa missão é abrir espaço para que todas caibam na mesa. Tratar o veganismo ou uma alergia como “manha”, “frescura” ou “seletividade” é educar uma nova geração para a intolerância e para o individualismo cego.

    Como adulta alérgica e vegana, conheço de perto a realidade de chegar aos lugares e encontrar a mesa farta para os outros e deserta para mim. Aprendi a lidar com isso com maturidade. Mas uma criança não deveria ter que carregar o peso da exclusão na celebração de um amigo. O episódio nos deixa uma lição incômoda, mas urgente: talvez seja pedir demais que a nossa sociedade compreenda e respeite o direito dos animais e da natureza, se ela se mostra incapaz de exercer a menor fagulha de empatia e hospitalidade com os seus próprios semelhantes. O bem-estar possível, afinal, começa na nossa disposição de olhar para o lado e garantir que ninguém precise sentar-se à nossa mesa com o prato vazio de afeto.

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